Sunday, October 24, 2010

Quer me f***, me beija!


Aloisio Santos ___________________

A frase “Esta é uma obra de ficção e quaisquer fatos e nomes, são mera coincidência”, colocada logo no começo de “Tropa de Elite 2”, serve para mostrar única e exclusivamente aos cariocas que, independente da nossa ciência, os bois foram nomeados. Alguns de forma explícita, em participações especiais e pontas. Mas isso é café pequeno para o mal que o Rio vem enfrentando nos últimos 30 anos e com grande crescimento, na virada deste milênio. Talvez essa seja a grande sacada de um cinema nacional que parece ter aprendido enfim, como se faz bom cinema. Não precisa mais ser macunaimesco para dizer que é nacional. Isso todo mundo sabe e não aprova nem um pouco. Só precisa de um ótimo roteiro, produção esmerada, bons atores e que saibam enxergar a boa mão do diretor. O resto flui redondo.

Isso significa que o dinheiro empregado pelos inúmeros patrocinadores que enchem a tela nos cinco minutos iniciais e deixando a platéia irritada (uma das manias que o cinema nacional precisa abolir imediatamente) foi bem utilizado. Mas o engraçado é ver como esta continuação, que toca na questão política da violência carioca, teve um grande suporte do governo estadual e municipal. No mínimo, irônico. Quem não vive no Rio e acompanha os acontecimentos apenas pelos jornais sabe que fatos, que vão desde o massacre que culminou com a morte de chefões do tráfico em Bangu, em 2001 até a recente troca de comandos da área de segurança, passando pela CPI das milícias, vai ver este filme com outros olhos. Como uma pequena extensão da insatisfação da impunidade nacional reinante. Todos nós cariocas sabemos os nomes e acontecimentos, mas todos eles se safaram em nome da “proteção aos inocentes”. Fazer o quê?

Não há o que questionar. A tal “vontade política” por qual todos apelam, tem vontade própria. E mais: ela tem fome, muita fome. Está na cabeça dos apresentadores de programas sensacionalistas, no marketing político, nos alpinistas políticos e que só fazem lutar mais quatro anos e pior, no cidadão que bem que gostaria de ter uma bolsa-família-com-quentinha-e-se-puder-um-pouco-de-arte-desde-que-seja-pela-tv-a-cabo a mais para continuar a morar em suas comunidades e ter motivos para reclamar. Desde que ele receba o seu quinhão todo quinto dia útil do mês. Isso tudo está lá. Mas cabe a pergunta: se todos nós sabemos o que acontece, porque será que dói mais quando alguém vem nos dizer isso de uma forma tão contundente? O diretor José Padilha apenas nos deixa mais perguntas na cabeça, pois um povo que não aprende com os próprios erros, deixa a minoria pensante sempre com a conta para pagar.

Enquanto produção, “Tropa 2” não deixa dever a nenhum filme de ação hollywoodiano. Tem os mocinhos, os bandidos, os mocinhos que viram bandidos e vice versa. Todas as implicações que vem dos altos escalões, também. Obedecendo as devidas proporções, o nosso pequeno Poderoso Chefão, por assim dizer. Vai além da didática esteticamente arrumada de “Cidade de Deus” e bem a frente da panfletagem de “Carandiru”. É cinema no sentido mais amplo, posto que não seja só diversão. Como toda arte, também vive de pulso e pulso que às vezes precisa da dor para fazer o sangue correr. Certamente, as cabeças pensantes de um Rio cada vez mais parecido com Chicago ou Medellín, sentiram o impacto. As demais vão apenas correr para o camelô mais próximo comprar a versão pirata para ver o que está bem na porta deles, todos os dias. E provavelmente rindo de tudo, pois se o nervosismo não é capaz de tirá-los do sério, sempre vão dizer que só resta rir do que chorar. Mas no final das contas, todos saem chorando.

Wednesday, March 31, 2010

Para não dizer que não falei


Aloisio Santos _______________

Jurar por todos os deuses, não comentar sobre um reality show, todo mundo é capaz, mas infelizmente, dados os acontecimentos que fizeram o BBB10 (ou seja, haja saco para tanto) impedem qualquer promessa. Todos sabem que, por onde zapearmos, mesmo na TV por assinatura, há uma enxurrada de programas similares. Alguns deles chegam a ter praticamente 100% de sua programação voltada para esse tipo de exibição. Mas o que o programa global, que há 10 anos serviria como um tapa-buraco na época de férias da emissora, tem para se comentar?

Antes, colocar várias pessoas literalmente enjauladas e longe de qualquer contato externo tinha um quê de experiência antropológica. Ver o que o comportamento humano é capaz de fazer quando desconhecidos teriam que se atuar como em um verdadeiro casamento. A idéia até que era legal, mas com o passar do tempo surgiu a sombra do cansaço e com as edições seguintes, a necessidade de mexer com as regras ficou inevitável. E claro, o mundo mudou nesses últimos 10 anos. Pelo menos na forma como os acontecimentos aparecem e são divulgados. Surgiram as redes sociais que, de alguma forma, fizeram da internet o Big Brother, versão mundial e o programa teria de “seguir” (palavrinha bem atual) a essa nova realidade. O problema é que as formas de se ver o mundo mudaram, menos as pessoas, daí o grande problema. Há de se falar que a décima edição do Big Brother, resolver misturar na “fauna” dos competidores foi um acerto. Mesmo assim, já sabíamos de antemão todos os estereótipos revelados nos programas antigos. E de um desses surgiu o vencedor deste ano.

Isso é a grande prova de como as pessoas não mudam, por mais que o mundo gire e a Lusitana rode. Como explicar para uma nação de analfabetos e esfomeados, sempre iludidos a cada dois anos com promessas de cima para baixo e com aquela vocação para o pop-brega ao extremo, que um macho-alfa, retrógado, homofóbico e que usa uma tatuagem abominada pela cultura ocidental contemporânea, como um símbolo de filosofia oriental? Não há o que explicar. É só dar um livro de boas maneiras a ele. Se passar pelo menos do capítulo 1, já merece um biscotinho canino para que possamos fazê-lo aprender o capítulo 2. E foi o que aconteceu. Alguns capítulos decorados e muitos biscoitos caninos depois, mesmo com as travessuras de praxe, se ganha um steak como prêmio máximo e uma fitinha azul.

E isso machuca a quem não vê com bons olhos, o comprometimento comportamental diante de uma meia dúzia de lições, no estilo “como se faz”. É duro para uma pequena parcela de informados, verem que se elege um milionário com quatro vezes mais votos do que o necessário para eleger o presidente dessa nação. Mas certamente isso explica muito sobre nós mesmos e a nossa atual situação. Somos gente de cara esburacada como nossas estradas, falida como nossas instituições, faminta de idéias e leis renovadas, antiquada como nossos governantes, mas ao mesmo tempo cheia de sofrer, como um bueiro entupido de lixo. Mas, caros, isso não é de hoje. Pão e circo para as massas e todo mundo sai feliz. Na vida real não há manipulação, a comunicação não faz você se teleguiar, mas sim mostrar um reflexo da sociedade. Se não houver identificação com a realidade e com o público, não há propaganda de Minuano que venda e daí, o nome reality show. Triste, mas é verdade. Enquanto isso, os Chacrinhas e Silvios Santos se reinventam, jogando dinheiro em forma de aviãozinho para os novos componentes dessa pet shop mundial. Nós ainda não passamos do capítulo 1. E só para lembrar, amanhã é o dia da mentira.

Sunday, March 21, 2010

Confesso que chorei


Aloisio Santos ____________________

Dia do trabalho, 1° de maio, caindo num domingo. Alguns reclamavam perder um dia de descanso, mas todos acordaram mais cedo, como em muitos outros domingos antes. O ano era um atípico ano para os brasileiros. Naquele momento muitos não sabiam sequer com o que pagar o pão de cada dia, se era em URV’s, cruzeiros, cruzeiros novos, real, ou um índice incompreensível para o cidadão comum. A pátria de chuteiras daria o seu passo-a-passo para quebrar um jejum de Copas do Mundo de 24 anos. Um ex-senador paulista viria a ser presidente, graças a um plano monetário que se mantém até hoje, sabe-se lá como. Naquele dia, como todo domingo, era dia de frango com macarrão. A praia ficaria lá pra depois das onze horas. Mas antes, o sagrado e ótimo ofício de vibrar em frente à TV era celebração ecumênica de uma nação inteira. E no meu caso, que passava ao longe das igrejas, essa era a minha religião.

O dia era tenso. Um piloto havia morrido dois dias antes, na pista de Ímola. O então meio-estreante Barrichello voou e quase destruiu a sua vida, logo depois. A torcida era não somente de ver um orgulho nacional vencer novamente, mas principalmente, como todo fã de Fórmula 1, que a fatalidade não fizesse das suas, mais uma vez. Ledo engano. Logo nas primeiras voltas, uma Williams deu de cara na curva Tamburello. Estilhaços para todos os lados e o pior, era “ele” quem o pilotava. Uma batida feia o suficiente para quem vira todas as corridas desde os tempos de Pace e Fittipaldi. O palavrão fez quem ainda dormia, acordar na hora, por todo o prédio.

Desde então, o resto do “feriado” foi de uma total apreensão. A minha experiência de louco por corridas já sabia dos detalhes de uma transmissão ao vivo. Câmera em um helicóptero bem longe. Nada muito focalizado e quando se noticiou que seria necessário uma traqueostomia, na hora, o sangue gelou e a mente já sinalizou para mim o que o resto do país veria mais tarde, nos plantões de notícia. Era desligar a TV, numa mistura de tristeza e aceitação, com esperança e o que mais viesse à cabeça. O caminho para a praia foi “no automático”.

E meio que robotizado, vi as horas seguintes. Nunca algo foi capaz de mexer com a minha emoção, quando a perda era eminente. Nunca tinha sido um adorador de celebridades, quaisquer que seja. Ainda não sou e por isso, uma coisa muito estranha me passou nos dias seguintes, com toda a mídia fazendo aquele sensacionalismo sobre a morte de alguém. Eu simplesmente me vi emocionado. Afinal, o Brasil ainda não tinha levado a Taça, não tinha ainda a certeza se o dinheiro que ele tinha valeria algo e se o tal ex-senador ganharia. Foi tudo um grande empurrão para o esquecimento do que aconteceu naquele Dia do Trabalho. Como se o nosso orgulho fosse ferido pela suspensão de um carro e nos atingisse a cabeça feito uma bala. Nós tínhamos o que mais próximo seria de um herói de carne e osso e que não era um jogador de futebol. Algo que o mundo inteiro reverenciasse simplesmente pelo que era capaz de fazer e ainda por cima amava o que fazia. E melhor: era brasileiro por amor, não somente por nascimento. A bandeira não tremula mais nas mãos nas voltas da vitória num domingo.

E eu confesso que chorei. Também.

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Wednesday, March 17, 2010

Acho que estou ficando velho - II

Aloisio Santos__________________
“Que Deus perdoe essas pessoas ruins”
Engraçado como uma frase escrita na camisa de um jogador de futebol nos faz refletir muito mais do que simplesmente futebol. A mente humana realmente tem uma certa perversidade e nós não temos a menor idéia do seu status. Quando vem, como aparece, porque faz das suas. Mas há uma certeza. É para se ter medo do que a mente da juventude, hoje, é capaz de assimilar e jogar fora. Regurgitar mesmo, porque a qualidade não é das melhores. Tem quem diga que jovens são assim mesmo e que estamos velhos para acompanhá-los. Que desde que o mundo é mundo, que o conflito de gerações se faz presente. Balela! (palavra velha, não?).

Por isso que sempre devemos ter boas referências. Há quem diga que os perdidos anos 80 foram uma droga. Que nada se compara a quem viveu os easy 50’s ou os perplexos e revolucionários 60 e 70. Pois bem, para quem viveu essa década em sua adolescência, tem a certeza que as influências foram tudo e isso levou a uma questão: a de que foi a última década com algum movimento cerebral. Era preciso ser livre, na prática e na garra, com que as décadas anteriores ensinaram, mas com uma extrema dose de energia e principalmente, sabedoria. O erro não poderia se repetir.

Para bom entendedor, basta a arte. Não precisa ser erudita, pois o pop é suficiente para mostrar como se faz. O que dizer do cinema, que há anos não produz um filme que entusiasme ou motive uma torcida por um Oscar? Medíocre e nivelado por baixo, não é mais capaz de se reinventar, só mudar a tecnologia. O que era diversão e novidade nos anos 80, virou manual de instruções, hoje em dia. Pura receita de bolo. Dá uma saudade imensa de ver como John Hughes retrava melhor os adolescentes e os tratava bem. Quer comparar o vampiro de boutique de hoje, assexuado, contra a tríade Banderas-Cruise-Pitt de “Entrevista com Vampiro?”. Que as bombshells de hoje vieram do Clube do Mickey? Certamente iriam precisar um pouco mais de feijão e pimenta (a muito gosto) pra chegar a ser uma Cindy Crawford, sem precisar de photoshop.

Quer música? Aqui temos uma boa enxurrada de motivos. Os ídolos atuais são compostos por quem se diz capaz de dizer “eu sou mais eu” da maneira mais vingativa e egocêntrica possível. Não gostou? Então essa bala de 45 é pra você, mano! Ou então se preferirem temos as ultra-gostosas do pedaço, que usando o tal manual, ainda não saíram do capítulo número 1 sobre caras e bocas (e gestos) a fazer. Quem se diz novidade é apenas uma mistura de David Bowie com Madonna e você não sabe se ela, em seu próprio, nome está homenageando o Queen, ou apenas escancarando a velhice da fórmula. O que é para ser puro escapismo momentâneo, vira cíclope em uma ilha de cegos.

O que mais intriga é que eles têm tudo à mão. Tudo ao mesmo tempo agora. Aconteceu, gravou no celular, passou pelo pen drive, jogou no HD, colocou no You Tube, “tuitou”, “orkutou”, foi por mail e assim, disseminado. Ou então, para os mais abastados, basta um bom celular com todos os aplicativos juntos e queimar as etapas anteriores e realizar tudo em uma só. Isso é informação, véio. Tá aí para quem quiser ver. Inclusão fazendo a exclusão. O mundo cabe no meu quarto e quero que o resto se dane. Vou andar com meu nariz empinado para quem quiser ver que sou o dono do mundo e se não prestou atenção nos últimos 20 segundos do que eu disse, já ficou para trás. Mas eles se esquecem de uma coisa. Informações são baseadas em fontes. Fontes são referências e mesmo com tudo na cara para quem quiser ver, o imediatismo não os permite ir muito além da banda que fez seus 15 minutos de fama, na última semana. Por isso não se impressione se o revisionismo homenageia os antigos em diversas formas de mídia, fazendo com que todos engulam como se fosse bala de sabor novo. Mash up é o novo conceito. Joga tudo no liquidificador (com gelo, de preferência). Se descer redondo tudo bem, só não arrote porque pode dar galho.

Por essas e outras que Deus deve perdoar a quem, a princípio, tenha uma mente ruim. Então vá buscar, vá pesquisar. Procure, corra mais um pouco. Se você conseguiu algo, maravilha. Guarde e se puder, espalhe. Só não deixe o sucesso da conquista subir à cabeça. Use como incentivo para as próximas. Emocione-se e chore por coisas que tenham mais sentido, mesmo que seja uma simples propaganda de margarina. Certamente a divindade e o mundo vão agradecer em ver como as pessoas estão mais simples e não menos atualizadas. O dia continuará a ter 24 horas, independente do que precisa fazer e não vai ser o Jack Bauer quem vai te salvar. Só você mesmo.

Sunday, February 07, 2010

Thursday, March 12, 2009

Vai com Deus!


Aloisio Santos ______________

Existe uma coisa que brasileiro adora fazer... Colocar Deus em todas as coisas. Um dos países com o maior número de cristãos no mundo, o que poderíamos esperar? Mas não quero colocar o Santo nome em dele em vão. Quero só fazer um relato de uma frase que sempre pontuou a minha vida. “Vai com Deus.”

É uma expressão de carinho, de afeto, algo como quem diz que pode ir, mas que volte porque te quero ver bem e do meu lado. Coisa que passa de geração em geração e que antes era reservada aos nossos avós quando queriam manter o seu manto protetor sobre nós.

O engraçado é que isso praticamente virou uma superstição em minha vida. Sair de casa significava gritar a todos pelo pequeno apartamento que iria sair. Mesmo que eu fosse apenas à padaria da esquina e voltasse 10 minutos depois. O importante era ouvir a minha mãe dizendo com aquela voz baixinha como ela e quase que inaudível... “Vai com Deus”. E eu seguia em frente como quem carregasse um elmo, uma armadura, escudo e lança. Pode vir o Bope, o Mão Branca, o Freddy Kugger, tanto faz. Sei que voltaria são e salvo como da mesma forma com que saí. E na verdade é uma das minhas poucas superstições, pois aos 40 anos quem acharia bom ter a necessidade de ouvir alguém dizendo “Vai com Deus”, mesmo que seja pra ir à padaria? Pois a essa mania eu junto ler um jornal de manhã cedo (sem isso me sinto como quem anda pela rua completamente pelado); um bom banho para acordar (pois sou lento demais pra sair da cama) e mais umas três coisas que nem vale a pena comentar. Só sei que gatos pretos e escadas não me fazem mal nenhum, muito pelo contrário.

Mas acho que essa expressão nunca teve tanto sentido quanto nos últimos dias. Um mês com a mãe internada num hospital público, aguardando a sua hora de ser operada, caindo de anemia, era realmente um caso de solução divina. E todos os dias ia vê-la, encher o saco de todo médico e enfermeira que encontrasse pela frente. Fazer o papel inverso de filho e mãe. Conversar com ela e logicamente ouvir o seu famoso “Vai com Deus”, quando não pudesse mais ficar por perto.

Pois em um dia de sol, ela acabou no CTI. Culpa por ficar muito tempo anêmica e que causou uma pneumonia daquelas. Por quase uma semana lá, fui meio que alarmado, pois ver uma mãe acostumada a pegar em serrotes pra mudar a casa inteira, naquela situação, cheia de tubos e deitada, praticamente sem ter como revidar, não é a melhor das imagens. Mesmo assim, tinha o meu prêmio de despedida ao ouvir a sua voz, dizendo sua frase default. Até que por uma causa clínica, um respiradouro foi necessário e ela, dopada, não teve como proferi-la por dois dias seguidos. E essas foram as últimas cenas que vi dela. Nada mais ouvi até que o dia que sua voz não pudesse ser escutada mais. Apenas a vi, com uma expressão de que a sua última luta foi realmente das mais hercúleas de todos os seus 74 anos de dedicação e altruísmo que vivenciou.

Confesso que a luta foi enorme, pois acreditava que seu frágil corpo não agüentaria por três anos após se despedir pra sempre do seu marido e de sua mãe. Mesmo com o baque de perder a irmã e amigas mais próximas, logo depois, ela agüentou por mais nove anos. Como disse antes, a baixinha não era mole. E ainda encarou duas cirurgias de catarata no meio do caminho.

Mas só na minha cabeça é que pude fazer uma oração de despedida por ela. A voz não saía nem por decreto e mesmo assim seria interrompida por total gagueira e incapacidade de balbuciar alguma coisa. Era deixar a chuva cair sobre o rosto e mesmo sem dizer uma palavra, retribuir as últimas palavras que recebi dela. “Vai com Deus”.

Amém.

Tuesday, November 25, 2008

uma noite de chuva

VA-DI-A – A palavra ficou martelando em seu cérebro durante horas, dias. Meses se passaram sem que ela conseguisse apagar da lembrança o som horrendo dessa palavra. Mesmo depois que a vermelhidão das mãos passou e que as lágrimas já estavam secas e grudadas no rosto, ela ainda podia ouvir a voz grave e rouca falando baixo e com uma raiva, ainda maior e mais perigosa, porque contida: VADIA.
Quem aquele guri de 20 e poucos anos achava que era para chamá-la de VADIA, assim, sem mais nem menos? Tá certo que o cheiro de sexo ainda empesteava todo o lugar. Os rostos afogueados, lábios inchados e os cabelos e roupas em desalinho eram indícios claros e não deixavam a menor dúvida do que acabara de acontecer ali na frente de to-dos, com a conivência de pessoas estranhas. Talvez o som do tapa tenha sido pior, tal-vez tenha provocado uma dor mais profunda. Mas agora ela nem se lembrava mais dis-so, apenas se perguntava incessantemente por quê: Por que abrir novamente a caixa de Pandora? Por que destravar as portas trancadas e lacradas desde tempos imemoriáveis? Por que não dar ouvidos àquela vozinha interior que passou o tempo todo gritando NÃO em seu cérebro? Por que ceder tão facilmente e capitular sem resistir o mínimo que fos-se diante da juventude e do vigor de um menino crescido demais?
VA-A-DI-I-A. Sim, ela era a pior vadia que eles já haviam conhecido. E provou isso na primeira oportunidade que apareceu. Pra que deixar passar uma chance de ouro de mos-trar que todos estavam certos?
O dia começou mal. O tempo carregado e nublado apenas confirmava o que todos já sa-biam de antemão. A chuva não dava tréguas e tudo tinha um cheiro de mofo, de enchar-cado, de coisas que não secaram direito. As ruas estavam repletas de poças e lama e res-tos de folhas caídas e esquecidas por ali. Os guarda-chuvas pingavam nela durante todo o percurso. A manhã estendia-se indefinidamente em um ritmo alucinadamente modor-rento, nada parecia se mexer. Apenas as gotas de chuva insistiam em molhar o vidro su-jo das janelas e escorriam formando desenhos estranhos, que prenunciavam um futuro cada vez mais cinzento e perturbador.
O almoço não foi nada melhor: gritos, brigas e confusões apenas serviram para deixá-la ainda mais cansada, irritada, sem disposição. Seu instinto assassino subia cada vez mais a tona de uma personalidade já conturbada pela inércia. Conforme a tarde se aproxima-va o desespero se tornava mais opressivo e constante. O ar pesado e molhado, a falta de espaço, apenas a oprimia como se ela tivesse uma enorme pedra sobre o peito. As pes-soas moviam-se como se estivessem presas em um líquido viscoso. Nada do que fala-vam fazia algum sentido.
Finalmente, o dia terminou. Não que tenha acontecido algo que marcasse o final do dia. Não houve um pôr-do-sol, aplausos ou qualquer outra manifestação espontânea de pes-soas felizes. Apenas a chuva. Ácida e cinza, incessante. Caindo sem parar, martelando sobre as cabeças e sombrinhas. Criando mais poças, trazendo mais lama e deixando o ar mais e mais pesado.
Com os nervos em frangalhos e a cabeça dando voltas e mais voltas ela aceitou o convi-te para a festa particular. A vista do apartamento seria deslumbrante não fosse à chuva e as nuvens pesadas, que permitiam que apenas os postes de luz mais próximos fossem vistos. Mas o barulho do mar era inconfundível. E acalmava, trazia de volta uma sensa-ção de paz perdida.
A conversa inteligente e o número reduzido de pessoas acabaram por relaxá-la. Isso e a quantidade inacreditável de vinho que ela ingeria em doses cada vez maiores. E quando menos se esperava a bandida pulou novamente para fora depois de anos e mais anos quieta e adormecida, fingindo-se de morta. Não deu tempo para mais nada, quem não estava com vontade de participar do bisonho espetáculo teve tempo apenas de sair de mansinho de perto da bandida. Quem não notou que ela estava instalada confortavel-mente na sala pode se divertir como poucas vezes na vida terá outra oportunidade.
E quando tudo finalmente acabou ela ouviu as duas coisas que mais a magoaram em to-da a sua vida medíocre. A primeira ela nunca vai contar para ninguém, afinal de contas o que um bêbado fala sobre e para uma vadia, não deve nunca ser levado em conta ou mesmo repetido em voz alta por quem quer que seja, mesmo que seja apenas uma ban-dida que adora azarar com a vida de outras pessoas.
Mas a segunda coisa que ela ouviu ainda ecoa em seus ouvidos. Ainda dói em seu cora-ção e está registrado mais profundamente que uma tatuagem. VADIA. Assim, simples. VADIA: por transar com o meu melhor amigo, por não respeitar a amizade que existia entre nós dois e entre vocês dois. VADIA: por não se respeitar e por não poder ficar 10 minutos com as pernas fechadas para qualquer coisa que se mexa.
A resposta dela foi mais direta. Um tapa: seco, duro, inesperado, sem força e sem direito de revide. Mas um tapa que ecoou por todo o apartamento e fez com que suas mãos fi-cassem doloridas, marcadas, caídas flácidas ao lado do corpo que ainda cheirava a sexo e trazia em seu desalinho as marcas do ato que tinha acabado de participar. Qual a vio-lência pior, ser julgada por algo que nem mesmo pode ser considerado crime ou se de-fender sem argumentos?
A dor do julgamento feito assim às pressas e com uma frieza a que ela não estava acos-tumada fez com que o revide tenha sido mais duro do que ela poderia imaginar. Nunca antes havia batido em alguém, mas a sensação foi maravilhosa. O poder que isso repre-sentou para ela abriu sua visão para a fonte inesgotável de poder que o abuso da força física pode proporcionar.
Mas que preço ela precisou pagar para saber disso? A perda de alguns bons amigos e a descaracterização de sua própria personalidade.
Talvez tenha sido a pior transa da vida dela, talvez não. Talvez tenha sido um ato sem a menor importância. Talvez não. Mas o final de mais aquele caso de uma única noite com certeza deixou marcas permanentes em sua torturada alma.

Sunday, October 05, 2008

Tangos e outras músicas



Bel Góes - Tem pouco tempo ouvi alguns esporros que mexeram comigo, balançaram muito minha estrutura e abalaram minhas mais profundas certezas e convicções.

Nunca fui de dar muita atenção para o que as pessoas pensam ou falam de mim ou comigo. Mas dessa vez calou fundo. A mesma frase veio de um guri de 20 anos e de um homem de 40. Para terminar uma grande amiga me disse que tenho que falar para fora. Isso explica porque ninguém entende o que eu falo, nem mesmo eu.

E aí o que agitou a lama que fica lá no fundo foram duas músicas. Na verdade várias, mas essas duas me fizeram ver o quanto tenho andado inexata, escolhendo caminhos equivocados. A primeira faz com que eu saia dançando, rindo, pulando e que me lembre das aulas de dança que tive no final de um namoro. Coisa maravilhosa que é final de namoro, a gente sempre descobre um milhão de motivos para ser feliz, para sair com os amigos e reclamar da sorte madrasta que fez com que o nosso par perfeito simplesmente fosse embora.

A segunda música sempre foi fonte de preconceito para mim. O mais elegante que conseguia falar sobre o ritmo era música de velho. Mas aí chegou o ano de 2008, um ano que já haviam prometido minha vida iria mudar de uma maneira que não teria mais volta, não teria mais um ponto de retorno... (ei guri, tá vendo, você tinha razão!)

Depois de passar alguns milênios convivendo com as pessoas, mas sem deixar que elas se aproximassem demais, resolvi baixar a guarda. E que maravilha, conheci pessoas lindas, que de outra maneira não entrariam na minha vida. Uma dessas pessoas me apresentou uma nova forma de ouvir, sentir, degustar e principalmente, me ensinou a gostar de tango. Sem nenhum tipo de artifício. Sem mentiras e truques acabei descobrindo o quanto é visceral, assim como eu. Diferente do flamenco, que sempre amei e da dança espanhola, que tentei aprender, o tango acabou me mostrando um lado meu que mantive mascarado por mais de 20 anos. É muito bom, quando meu coração bate no mesmo ritmo da música, quando a boca seca e as pernas simplesmente seguem o ritmo.

Não sou de dar conselhos, mas deixo uma dica para quem quiser seguir: dancem, bailem, coloquem o corpo em movimento. A única coisa que interessa é ser feliz e se os problemas não tiverem solução, nem pensem nele.

Ah! A primeira música é do filme Inside Man. Escutem, vale a pena sair dançando por aí!


Vida que segue



Bel Góes - Sabem esses filmes sobre amizades eternas, com reencontros emocionantes e segredos ditos a meia voz? Sempre gostei desse tipo de filme. Não aquela coisa piegas e sem graça de amigas para sempre, papo de mulherzinha fazendo chá, gritos histéricos e acusações de traição. Mas aquele tipo Lendas da Paixão, em que a amizade e o amor entre os irmãos é tão forte que um deles é capaz de atravessar o campo de batalha inimigo sob uma saravaida de balas para resgatar o corpo morto de seu irmão caçula e arrancar seu coração inerte para enterrar no lugar onde costumavam brincar e onde foram felizes pela última vez. O então os pactos eternos que duram um verão (ou a vida inteira). Meninos que crescem juntos no mesmo bairro e passam por poucas e boas e depois de adultos continuam sendo amigos, nunca se encontram, não podem mais se ver, mas não podem esquecer a importância que eles têm um na vida do outro.

Tenho uma amiga assim. A primeira lembrança de amizade que tenho é com ela. As confidências, risinhos, amores eternos que duraram uma única tarde de chuva, as brigas irreconciliáveis, o choro doído do primeiro fora. E também a primeira lembrança da dor da despedida é com ela.

Ontem fiquei pensando em todos os meus amigos que se foram, em todos os amigos que perdi. Não falo de amizades que não tem princípio nem fim, das que sempre existiram e que a gente um dia esbarra e sem saber como ganhamos mais irmãos e irmãs. Falo dos amigos que passam por nossas vidas, encostam um dedo mágico para nos fazer ver o quanto o mundo é colorido e depois simplesmente desaparecem no éter.

É tão grande o número de amigos que se foram, que não estão mais aqui que cheguei a conclusão que estou muito velha e cansada para novas amizades. Amigos são insubstituíveis, não é como uma calça jeans que você pode sempre comprar uma melhor, mais nova, mais bonita, mais na moda.

A perda mais recente fechou um ciclo na minha vida. Foi exatamente como a primeira. Uma noite de chuva, a pista molhada, ensebada. Um motoqueiro sem capacete e uma curva fechada demais. Voltei a ter 10 anos, vi novamente o cabelo louro do Du, os olhos verdes brilhando no meio da chuva enquanto a gente brincava no recreio. Ouvi sua risada, senti o cheiro bom de roupa limpa e sabonete de neném. Mas a dor é outra, mais madura, mais trancada. Ela se junta com todas as outras dores de perdas irreparáveis, de traições, de frustrações e aí o ciclo não se fecha. A roda não é perfeita.

Mas a vida se encarrega de mostrar que tudo sempre retorna ao ponto de origem. No dia seguinte ao enterro o pai do meu amigo me entregou uma caixa toda suja de terra e lama. E para minha surpresa eu ainda tinha a chave do cadeado. E todos juntos, todos os amigos que sobraram, abrimos o baú da nossa infância revisitando os itens esquecidos de crianças inocentes. As figurinhas, piões, joguinhos, cartas, anéis... tudo como deixamos para trás, mais de 20 anos guardados em uma caixa de ferro, enterrada em um jardim. E as lembranças apenas nos mostram que não existem amizades eternas. Que nada é eterno. Mas que a vida segue seu rumo sem se deter por nada, se dar tempo para que a gente se acostume com as pedras que caem.

Wednesday, August 01, 2007

Agora que acabou...


Aloísio Santos ___________ Aquele café bem perto do Largo da Carioca guarda uma medalha Pan-Americana. É prateada e tem quatro anos de vida. Na verdade, uns anos a mais do que isso, talvez. Claro que pra conseguir colocar uma dessas no peito é necessário dedicação ímpar. Anos de treinamento, noites mal dormidas e, logicamente, muita porta na cara. Afinal, quem vive de esporte amador não tem patrocínios, tem “paitrocínios”. Essa medalha, por incrível que pareça já ouviu até um de ídolo medalhista, o seu total desprezo pelo esporte que ele praticava. Algo parecido como a fábula do patinho feio. Mas mesmo assim, quem continuou na equipe, tinha a torcida de todos aqueles esquecidos da festa de quatro anos atrás. Havia a esperança que algo mudaria na vida de todos. Hino nacional. Um Pan na terra natal. Mas sabiam que, com seus pés no chão pouco aconteceria, daí pra tocarem suas vidas em suas identidades secretas era o caminho sensato a seguir.

Era engraçado acompanhar tudo pela tv e quem sabe ver um filme da própria vida passando pela cabeça. Mas mesmo assim torcia e poderia fazer os mesmos movimentos dos seus antigos companheiros como se estivesse lá, jogando. Batalhando por outra medalha. Voltar no tempo provavelmente daria a sensação de que suas prioridades eram outras naquela hora. Tudo isso envolto em livros, cafés, quiches e na prateleira com memorabilias, que era o único sinal visível a todos, daqueles dias de luta.

Chato perceber que heróis de carne e osso não são como os mutantes gloriosos dos desenhos. Notar que a memória que as pessoas têm deles vai até onde as notícias conseguem saturar. Que os louros da vitória não garantem novos desafios a não ser o de continuar lutando. E que no fim do dia, voltarão pros seus lares com o peito cheio de orgulho não por ter feito algo que gostam e vencer com isso. Mas simplesmente por terem chegado ao ponto onde queriam chegar com todo o sangue, suor e lágrimas que derramaram. Agora tudo acabou. A cidade voltará à sua rotina de sempre. Pira apagada. Novos heróis em seus tronos instantâneos e temporários.

As notícias de hoje são as mesmas de todos os dias. Todas aquelas em que temos a infelicidade de ver, mas sempre atiçando a nossa curiosidade louca de saber onde tudo pode parar. Aquela sensação de fim de festa e que com os holofotes apagados, os templos parecem estar fadados a criarem teias de aranha gigantescas. Do tamanho do sonho de todos os esportistas de conquistarem seus olimpos particulares.

E a vida vai continuar naquele café no centro do Rio. Boa amizade, boa companhia, boa conversa, “tudibom” como costumam dizer. A medalha estará lá feliz da vida por ter seu brilho. E querem saber o que aconteceu com aqueles por quem ele torcia esses dias? Repetiram seu feito e colocaram mais medalhas na estante para provar que estão vivos, de carne e osso e fazem daquilo que gostam, o seu gesto heróico.

Wednesday, March 07, 2007

Lua do Dia


Aloisio Santos _______

Tem pelo menos uns 10 anos que sempre faço um texto pelo dia de hoje a todas as mulheres da minha vida. Mãe, irmã, primas, amigas, namoradas, ex-namoradas, amores platônicos. Não por fazer média, nem para fazer imagem de um homem contemporâneo, sensível, ou até mesmo para ganhar pontos com elas. Tanto que os textos ao meu ver, pelo menos, não tem cheiro de patchouli quando lido, não são panfletários e nem mostram uma falsa homenagem. Coisa de um dia só. Mas retratam mais o meu dia-a-dia. Meu olhar e a participação delas nos fatos que presencio desde que me entendo por gente. Tanto que fazia isso com uma regularidade que vai além do oito de março. Pode ser num dia qualquer. Mas tem tempos que não guardava uns minutos para isso. Trabalho, problemas, amores correspondidos ou não e que me faziam ter a cabeça completamente vazia a ponto de escrever algo que valha.

Talvez a Lua que vejo sobre a Cidade Maravilhosa desse o frescor na mente que precisava. Pela a janela do metrô via casas, casebres, fábricas tendo apenas o olhar da Lua sobre elas. Como se a velocidade sobre os trilhos não importasse. A cena que fiz na minha mente já estava fotografada. Isso certamente não aconteceria num dia de sol mesmo que com um céu de brigadeiro. Talvez porque temos na Lua a figura feminina, de complacência, de inspiração, de afago na alma. Ou por simplesmente por ser um substantivo feminino.

É difícil vermos o sol. Causa dor na vista. Precisa-se de artifícios para ver sua circunferência. Ele nos agride com a fúria e a testosterona, mesmo que seja um sinal de vida, de luz. A lua tem a calma das mães, o carinho dos amores que nos colocam em seus colos todas as dores do mundo para serem totalmente esquecidas. Podemos ficar por horas a olhar suas fases, o tom branco que nem uma tela vazia demonstra. Para ela temos o olho a olho, sem dor. Ela nos mostra suas crateras, como quem dissesse que também tem a sua vida bastante marcada, mas nada que umas voltas sobre a Terra não resolvam. É a ela que falamos sempre com o peito cheio de esperança, sua maior amiga feminina.

Vi um alfabeto inteiro de todas as luas. Leonices, Alessandras, Marines, Giseles, Mônicas, Roses, Anas, Carolines, Patrícias, Denizes, Elianes, Lisas, Sonias, Selmas, Flavias, Beatrizes ou simplesmente seus apelidos que se autodenominaram tão diminutivos e carinhosos. Ju, Mo, Ro, Pri, Kel, Nininha... E por um momento virei-me em direção às pessoas dentro do trem. Parecia não darem a menor atenção ao que acontecia lá fora. Queriam apenas voltar para suas casas. Maridos, namorados, filhos queriam saber que um bom sorriso iria recebê-los pelo dia de batalha. Elas lá dentro do trem riam completamente como crianças, falando coisas mil delas mesmas ou sobre o nada. Tinham esquecido completamente seus problemas depois de desligarem o ar e a luz do escritório ao fim do dia.

Não sei o que farão hoje. Receberão flores, galanteios, presentes, cantadas diversas. Umas bem sutis e agradáveis e outras que não se fala nem em pensamento. Não sei se sou digno de dizer algo ou fazer alguma coisa. Apenas sei que a Lua, assim como as mulheres no metrô, estarão por lá. Também não sei se ela me recebe mesmo quando está nova ou minguante. Mas posso apostar que a cada dia, cada fase, tenho novos sonhos. Alguns belos, outros pequenos e talvez enormes, e muitos bregas demais pra se dividir com uma alma feminina. E certamente me sentirei em casa.

Thursday, February 22, 2007

Mas que @#$*% é essa?


Aloisio Santos__________

Como é que alguém tem a coragem de deixar um filme do @#$*% Scorsese na última sessão de um dos @#$*% piores cinemas da cidade? Tudo bem. Culpa minha que o tempo me impediu de ver “Os infiltrados” no ano passado. Mas a uma semana do Oscar isso não se faz. Pra piorar um @#$*% de um Zé Mané na cadeira vizinha, não quis guardar meu lugar enquanto ia comprar pipoca e refrigerante. Oras, passar 2 horas e meia com fome, de noite seria demais. Se a @#$*% cadeira não estivesse presa ao chão, eu bem jogava na cabeça desse @#$*% cara.

Parece que depois de fazer um @#$*% filme sobre a máfia italiana (Os bons companheiros) e da máfia dos cassinos de Las Vegas (Casino), um dos meus diretores prediletos resolveu cavar fundo na @#$*% máfia irlandesa. Resultado de um roteiro de um filme chinês. Afinal, o cinema oriental é uma das maiores @#$*% fontes de inspiração do cinema americano, além do Paul Haggis e do James Brooks. No final das contas vemos a maior enxurrada de @#$*% caras conhecidas por quadro em um único filme, só perdendo pros @#$*% filmes catástrofes dos anos 70. Tinha até o Alec Baldwin. Mas um @#$*% Baldwin, qualquer produtor consegue colocar em um filme.

O bom do Scorsese é que ele consegue fazer @#$*% filmes sempre com aquela câmera ágil e cortes rápidos e secos que parecem um @#$*% videoclipe da MTV. Mas isso ele já fazia bem antes do canal de música. E num filme como esse faz todo o sentido. O problema é que o pessoal da Costa Oeste americana parece ter uma @#$*% raiva dele. Talvez porque seus filmes retratem mais a @#$*% neurótica Nova Iorque e a Costa Leste do país. Parece briga regional, e é. Pois bem que das 7 indicações que Scorsese teve, ainda não levou nada pra casa. Mesmo que seus filmes já tenham ganhado o prêmio máximo, como foi o caso de “O aviador” com o @#$*% Di Caprio. E não é que dessa vez, ele trabalha bem?

Mais incrível é ver o Jack @#$*% Nicholson com suas caras e bocas sendo um chefão de alguma máfia. Se fosse de um @#$*% time da NBA, até vai. Mas mais um ponto pra Scorsese, porque é um dos trabalhos mais siginificativos de Nicholson. Um cara que já tem Oscar na estante e já ganhou 60 @#$*% milhões de dólares em um único trabalho. Por fora tem um Matt Damon fazendo papel de Matt Damon, um Mark Walhberg que já deixou de ser rapper faz tempo e um Martin @#$*% Sheen de quebra? Só faltou uma atriz boazuda pra completar a @#$*% festa.

Quem sabe dessa vez o pessoal da academia acorde e deixe que a profecia se cumpra, deixando “Os infiltrados” com a maior parte dos @#$*% prêmios. E de preferência com um deles pro diretor. Ele já fez por onde há décadas e é um dos mais @#$*% incríveis dele em anos. Agora o seguinte... Porque tanto @#$*% em um texto como esse? Oras. Se trata de um filme do @#$*% Scorsese, man!

Wednesday, February 21, 2007

Um por dois ou dois por um?


Aloisio Santos_______

Filho da mãe do Spielberg! Pela primeira vez estou xingando um cineasta que adoro porque me faz ver um filme por causa de outro. Graças a ele, a dupla de diretor e roteirista Eastwood e Haggis (parece firma de advocacia) se juntou à produtora Dreamworks para contar duas versões de uma mesma história; a invasão da Ilha de Iwo Jima. A versão japonesa e a vista pelos americanos, que usaram uma foto como um dos emblemas de suas vitórias na II Guerra Mundial. O que importa é que bem que poderiam fazer um filme de três horas em vez de duas de dois... Talvez o efeito e o resultado fossem mais positivos. Mas como todo mundo sabe que cabeça de produtor Hollywoodiano se liga mesmo em qual casa em Orange County vai comprar com esse filme, então é melhor nem questionar muito.

O que importa é que como dizem as críticas, a visão japonesa dos fatos é infinitamente melhor como filme do que o “americano” A Conquista da Honra, baseada mais numa turnê de falsos heróis de guerra, bancada pelas forças armadas com finalidade de angariar fundos. Como o título mesmo diz (Cartas de Iwo Jima), a narrativa corre de acordo com os depoimentos de comandantes, soldado dado às suas famílias durante o confronto que em vez de quatro dias, durou quarenta. Mas é impossível hoje em dia pensar em um filme sobre a Segunda guerra, com personagens japoneses, sem o Toshiro Mifune ou dirigidos pelo Kurosawa. Eles sabiam dar o recado. Não que Eastwood não saiba. Afinal ele revisou o western, o filme de boxe e a biografia musical, (Imperdoáveis, Menina de Ouro e Bird, respectivamente), mas não tem como não notar a influência direta do Spielberg em enquadramentos e principalmente na fotografia quase sem saturação nas cores que determinam uma geologia inóspita e capaz de fazer todos os combatentes terem crises de desinteira.

O filme é carregado nas costas pela interpretação de Ken “O último samurai” Watanabe, o comandante das tropas, mas quem ganha a atenção da platéia é o coadjuvante Ninomiya que faz o padeiro levado contra sua própria vontade a uma guerra, dando a demonstração que os japoneses entraram nessa de gaiato e se deram mal. Quem viu “Tora Tora Tora” pode confirmar. Não tem como não entrarmos na pele dele e torcer a cada vez que a sorte (ou os deuses) o tira do fim iminente. Ele encarna o homem comum que bem poderia estar em casa cuidando da família e da vida em vez de ser apenas uma peça nas guerras que até hoje questionamos o porquê das mesmas.

O filme é apontado como um novo clássico. Pode ser que o tempo diga sim. Mas o próprio público americano, preguiçoso em ler legendas (o filme é todo em japonês) resolveu dar esse tributo, indicando-o com o Oscar do ano. Realmente é um bom filme. Mas sinceramente, sem Mifune e sem Kurosawa fica difícil colocar num pedestal. Eles já estão lá por direito há mais de 30 anos.

Monday, February 19, 2007

Tá pensando que é a Rainha da Inglaterra?


Aloisio Santos__________

Ao chegar no ótimo Estação Ipanema para ver “A Rainha” de Stephen Frears (sim, eu também confundo com os ingleses Stephen Fry e Stephen Rea), tive a impressão de estar em duas situações. Um: Num congresso sobre geriatria, pois provavelmente eu era o único com menos de 40 anos na sala. Dois: Numa convenção de sósias da Rainha Elizabeth, pois todas eram senhorinhas que mesmo nos primeiros minutos do filme não paravam de fofocar das vidas alheias. E pensar que elas, 20 anos atrás, nos mandavam calar a boca no cinema. Elas precisam de um poço da rígida educação britânica. E justamente nesses primeiros minutos, ainda com o letreiro incial, a pose da atriz principal Hellen Mirren como num retrato oficial não deixa dúvidas a que ela veio. “É ela!” – dizem. Até a logo do filme é igual ao do grupo do Freddie Mercury. E geralmente em situações de extrema coincidência estética e de interpretação nos dão conta pra quem vai o prêmio por atuação no ano.

Mas esse tipicamente filme inglês mostra o início do governo do então moderno Tony Blair e a semana que se sucedeu à morte da Princesa Diana. Os bastidores desses dois governos. Comportamentos, atitudes, interesses e como uma das instituições britânicas mais veneradas desde o futebol e o sistema de transportes, lidou com o fato. Mas graças ao elenco de peso que tinha James Cromwell num auxílio luxuoso, um Tony Blair perfeito e uma Mirren que meses antes encarnou a Rainha-mãe, tornou tudo perfeito. Apenas a Rainha-mãe desse filme não tinha a aparência exata, mas incorporou bem a sábia e simpática pé-de-cana real.

A grande sacada deste “A Rainha” não é somente mostrar que Elizabeth é de fato a mão de ferro da família, nem um Primeiro Ministro querendo mostrar serviço (como sempre), mas em pequenas surpresas como ver uma idosa mandatária real de um país encara,r um Land Rover numa trilha esburacada, com a desenvoltura de um marine americano e ao mesmo tempo ter seu momento de ternura ao maravilhar a natureza. E claro, a velha troca de farpas entre o Parlamento e a Família Real, que sempre fez questão de mostrar que a Princesa do Povo era apenas mais uma dentre tantas infâmias que a história da realeza britânica nos mostrou. Também, quem manda ter príncipes patetas a cada geração?

Hollywood gosta de dar sua fatia de bolo às produções da Grã Bretanha, laureando com indicações, mas notadamente não são os maiores vencedores, o que demonstra que os americanos querem mostrar que o santo de casa deles, faz milagres. E melhor do que todos. Mas há de convir que aqueles de formação Shakespeariana são melhores do que os do Actors Studio em léguas de distância. E geralmente resultam em filmes mornos e lentos em narrativa em detrimento a um visual de pesquisa muito bem apurado. Mas não é este o caso de “A Rainha” que fez um bom pacote em tudo. Pena, que bairrismos à parte levam apenas o Bafta – a premiação máxima do cinema na Inglaterra. Mas que Mirren é ela, isso é verdade. E estejam certos de que perguntarem “Quem você pensa que é, a Rainha da Inglaterra?” em razão da sua audácia de encarnar mãe e filha em filmes diferentes, ela certamente dirá sim e dará as costas a todos, com a famosa atitude de uma realeza britânica.

Saturday, February 17, 2007

Novas linhas de dramas familiares



Aloisio Santos _________

Os anos 70 e o começo dos 80 no cinema americano foram muitos marcados pelos dramas. Mais precisamente os familiares. Parecia que os Estados Unidos ainda queriam exorcizar seus demônios após o Vietnã e o Watergate com histórias que poderiam ser a dos nossos vizinhos. Ou mesmo as nossas. Coisa de novela. Pais que brigam com esposas, que brigam com filhos, que não entendem seus avós, que não compreendem os tios e por aí vai. Separações e reconciliações. Moralismo a toda prova que cai sempre na programação da tv de sábado à noite hoje em dia.

Mas de tempos em tempos o cinema faz questão de renovar seus estilos e histórias. Tivemos um revival de musicais nos 80, uma aproximação com os épicos nessa década. E uma Hollywood agora mais próxima do cinema independente, tem também seus dramas. Claro que os diretores e roteiristas viram essa proximidade e talvez pensando nisto, resolveram colocar (ou tirar) os esqueletos dos problemas familiares das gavetas. O caso mais recente é um dos azarões do Oscar desse ano, “Pequena miss sunshine”. Basta ver que os diretores são famosos por realizar videoclipes musicais do Red Hot Chili Peppers, do R.E.M e da Janet Jackson apenas para citar alguns.

E claro que os cineastas independentes americanos adoram fazer gozação deles mesmos. E a família desse filme tem todos os estereótipos possíveis. Além claro, de dar alfinetadas no “american way of life”, pois ninguém é de ferro. E o interessante é que a família deste filme se choca com suas próprias posições e decisões perante suas vidas e a sociedade. Esse é o mote principal, e não um “road movie” como dizem. Seria simplificar o roteiro de 30 páginas a meros dois parágrafos numa linha só. Temos figuras interessantes. Um Greg Kinnear que faz o típico americano com síndrome de Lair Ribeiro, a (sempre) dona de casa amargurada Toni Collete (precisam dar papéis mais variados para ela), um Alan Arkin impagável como avô mezzo hippie, um Steve Carell surpreendentemente diferente do habitual (viu como faz bem pra um ator, uma mudança?), o adolescente rebelde sem causa e a pequena Abigail Breslin. A sunshine do filme.

O engraçado é perceber que apesar da sua indicação ao Oscar de atriz, a menina não rouba o filme, pois ela o faz como quem passa pela mesma situação. É uma criança e pronto! Aí o mérito é da direção e de um roteiro que faz deste road movie (ops!) muito mais do que se pretende. Mas um jogo de sete erros que viram mil e a família de pernas pro ar. Não apenas para realizar o sonho da menina. Mas para dar um sopro de vida e rumo que eles parecem buscar o tempo todo.

Por isso não estranhem se por algum acaso perceber em certos exageros do filme, vocês em situação igual. É apenas o novo drama familiar, com tintas independentes e muito atuais. Ganha o cinema, ganha quem o realiza, ganha quem vê, que sai de lá com seus órgãos devidamente desopilados por rir não da desgraça alheia. Mas provavelmente da sua.

Thursday, February 15, 2007

Perdeu-se na tradução.


Aloisio Santos ________

Foi com grande surpresa que o filme “Babel”, do incensado diretor mexicano Alexandro Iñarritu (de “Amores Brutos” e “21 gramas”) levou o prêmio máximo do Globo de Ouro desse ano. Mas porque a surpresa? Simples. De várias indicações aos prêmios da noite, não levara nenhum e no momento do anúncio, Scorcese já confiante, abotoava o smoking pra subir ao palco de novo pelo seu “Os infiltrados”. De certa forma foi uma reedição do que aconteceu no Oscar do ano passado com o filme “Crash”.

Mas aí mora a grande diferença. “Crash” é realmente um grande filme, enquanto “Babel” tem de grandioso apenas 25 minutos a mais na média de duração de um filme de cinema. O impacto do vencedor do Oscar do ano passado foi tão grande que fez com que pensassem o seguinte: No filme de 2005, havia o relato de todas as raças e etnias, assim como seus conflitos diários na louca cidade de Los Angeles. E a fórmula deu certo. Que tal se fizermos o mesmo, mas através de uma visão literalmente global? E por conseqüência maior? Vai ser um estrondo - pensaram os produtores. Sendo assim, mãos à obra. O grande problema é que nessa Babel, algo se perdeu na tradução. Ou seja, no roteiro. De todas as histórias isoladas que se intercalavam no filme (já está se tornando um método batido de se fazer roteiros), apenas a da japonesa surda tem verossimilhança e impacto desejado. As demais histórias lembram antigos episódios de desenhos animados onde se para resolver as confusões, se criam outras e aí se instaura a bola de neve. Afinal que casal vai tentar uma reconciliação numa viagem-excursão para um país em pé de guerra? Que imigrante ilegal faria a besteira que fez no filme? A dos irmãos briguentos tem lá o se mérito por mostrar coisas de sua cultura que os noticiários não apresentam. Atuações à parte, vemos um Brad Pitt sem maquiagem, mas com os mesmos trejeitos de sempre. Mesmo assim consegue uma atuação tão boa desde “12 Macacos” e Cate Blanchett dá o seu banho de costume. A tal japonesa e a mexicana desesperada ganharam indicações por suas atuações, mas pelos comentários, os prêmios para atores e atrizes já têm os seus donos.

No mais, uma boa edição tenta render o filme de forma menos sonífera possível. E Inarritu repete o bom trabalho que fez em “21 gramas”. A câmera inquieta (outro artifício já um tanto batido) mostra nuances como apenas ele parece fazer e as experiências sensoriais da japonesa são exepcionalmente demonstradas, como na cena da balada (eita termo desgraçado esse!). É um bom filme, embora um tanto esquecível. Digamos que o impacto já foi feito e por isso a impressão de que “Babel” é só mais um do gênero nos vém à cabeça logo ao sair da sala.