Sunday, February 07, 2010

Thursday, March 12, 2009

Vai com Deus!


Aloisio Santos ______________

Existe uma coisa que brasileiro adora fazer... Colocar Deus em todas as coisas. Um dos países com o maior número de cristãos no mundo, o que poderíamos esperar? Mas não quero colocar o Santo nome em dele em vão. Quero só fazer um relato de uma frase que sempre pontuou a minha vida. “Vai com Deus.”

É uma expressão de carinho, de afeto, algo como quem diz que pode ir, mas que volte porque te quero ver bem e do meu lado. Coisa que passa de geração em geração e que antes era reservada aos nossos avós quando queriam manter o seu manto protetor sobre nós.

O engraçado é que isso praticamente virou uma superstição em minha vida. Sair de casa significava gritar a todos pelo pequeno apartamento que iria sair. Mesmo que eu fosse apenas à padaria da esquina e voltasse 10 minutos depois. O importante era ouvir a minha mãe dizendo com aquela voz baixinha como ela e quase que inaudível... “Vai com Deus”. E eu seguia em frente como quem carregasse um elmo, uma armadura, escudo e lança. Pode vir o Bope, o Mão Branca, o Freddy Kugger, tanto faz. Sei que voltaria são e salvo como da mesma forma com que saí. E na verdade é uma das minhas poucas superstições, pois aos 40 anos quem acharia bom ter a necessidade de ouvir alguém dizendo “Vai com Deus”, mesmo que seja pra ir à padaria? Pois a essa mania eu junto ler um jornal de manhã cedo (sem isso me sinto como quem anda pela rua completamente pelado); um bom banho para acordar (pois sou lento demais pra sair da cama) e mais umas três coisas que nem vale a pena comentar. Só sei que gatos pretos e escadas não me fazem mal nenhum, muito pelo contrário.

Mas acho que essa expressão nunca teve tanto sentido quanto nos últimos dias. Um mês com a mãe internada num hospital público, aguardando a sua hora de ser operada, caindo de anemia, era realmente um caso de solução divina. E todos os dias ia vê-la, encher o saco de todo médico e enfermeira que encontrasse pela frente. Fazer o papel inverso de filho e mãe. Conversar com ela e logicamente ouvir o seu famoso “Vai com Deus”, quando não pudesse mais ficar por perto.

Pois em um dia de sol, ela acabou no CTI. Culpa por ficar muito tempo anêmica e que causou uma pneumonia daquelas. Por quase uma semana lá, fui meio que alarmado, pois ver uma mãe acostumada a pegar em serrotes pra mudar a casa inteira, naquela situação, cheia de tubos e deitada, praticamente sem ter como revidar, não é a melhor das imagens. Mesmo assim, tinha o meu prêmio de despedida ao ouvir a sua voz, dizendo sua frase default. Até que por uma causa clínica, um respiradouro foi necessário e ela, dopada, não teve como proferi-la por dois dias seguidos. E essas foram as últimas cenas que vi dela. Nada mais ouvi até que o dia que sua voz não pudesse ser escutada mais. Apenas a vi, com uma expressão de que a sua última luta foi realmente das mais hercúleas de todos os seus 74 anos de dedicação e altruísmo que vivenciou.

Confesso que a luta foi enorme, pois acreditava que seu frágil corpo não agüentaria por três anos após se despedir pra sempre do seu marido e de sua mãe. Mesmo com o baque de perder a irmã e amigas mais próximas, logo depois, ela agüentou por mais nove anos. Como disse antes, a baixinha não era mole. E ainda encarou duas cirurgias de catarata no meio do caminho.

Mas só na minha cabeça é que pude fazer uma oração de despedida por ela. A voz não saía nem por decreto e mesmo assim seria interrompida por total gagueira e incapacidade de balbuciar alguma coisa. Era deixar a chuva cair sobre o rosto e mesmo sem dizer uma palavra, retribuir as últimas palavras que recebi dela. “Vai com Deus”.

Amém.

Tuesday, November 25, 2008

uma noite de chuva

VA-DI-A – A palavra ficou martelando em seu cérebro durante horas, dias. Meses se passaram sem que ela conseguisse apagar da lembrança o som horrendo dessa palavra. Mesmo depois que a vermelhidão das mãos passou e que as lágrimas já estavam secas e grudadas no rosto, ela ainda podia ouvir a voz grave e rouca falando baixo e com uma raiva, ainda maior e mais perigosa, porque contida: VADIA.
Quem aquele guri de 20 e poucos anos achava que era para chamá-la de VADIA, assim, sem mais nem menos? Tá certo que o cheiro de sexo ainda empesteava todo o lugar. Os rostos afogueados, lábios inchados e os cabelos e roupas em desalinho eram indícios claros e não deixavam a menor dúvida do que acabara de acontecer ali na frente de to-dos, com a conivência de pessoas estranhas. Talvez o som do tapa tenha sido pior, tal-vez tenha provocado uma dor mais profunda. Mas agora ela nem se lembrava mais dis-so, apenas se perguntava incessantemente por quê: Por que abrir novamente a caixa de Pandora? Por que destravar as portas trancadas e lacradas desde tempos imemoriáveis? Por que não dar ouvidos àquela vozinha interior que passou o tempo todo gritando NÃO em seu cérebro? Por que ceder tão facilmente e capitular sem resistir o mínimo que fos-se diante da juventude e do vigor de um menino crescido demais?
VA-A-DI-I-A. Sim, ela era a pior vadia que eles já haviam conhecido. E provou isso na primeira oportunidade que apareceu. Pra que deixar passar uma chance de ouro de mos-trar que todos estavam certos?
O dia começou mal. O tempo carregado e nublado apenas confirmava o que todos já sa-biam de antemão. A chuva não dava tréguas e tudo tinha um cheiro de mofo, de enchar-cado, de coisas que não secaram direito. As ruas estavam repletas de poças e lama e res-tos de folhas caídas e esquecidas por ali. Os guarda-chuvas pingavam nela durante todo o percurso. A manhã estendia-se indefinidamente em um ritmo alucinadamente modor-rento, nada parecia se mexer. Apenas as gotas de chuva insistiam em molhar o vidro su-jo das janelas e escorriam formando desenhos estranhos, que prenunciavam um futuro cada vez mais cinzento e perturbador.
O almoço não foi nada melhor: gritos, brigas e confusões apenas serviram para deixá-la ainda mais cansada, irritada, sem disposição. Seu instinto assassino subia cada vez mais a tona de uma personalidade já conturbada pela inércia. Conforme a tarde se aproxima-va o desespero se tornava mais opressivo e constante. O ar pesado e molhado, a falta de espaço, apenas a oprimia como se ela tivesse uma enorme pedra sobre o peito. As pes-soas moviam-se como se estivessem presas em um líquido viscoso. Nada do que fala-vam fazia algum sentido.
Finalmente, o dia terminou. Não que tenha acontecido algo que marcasse o final do dia. Não houve um pôr-do-sol, aplausos ou qualquer outra manifestação espontânea de pes-soas felizes. Apenas a chuva. Ácida e cinza, incessante. Caindo sem parar, martelando sobre as cabeças e sombrinhas. Criando mais poças, trazendo mais lama e deixando o ar mais e mais pesado.
Com os nervos em frangalhos e a cabeça dando voltas e mais voltas ela aceitou o convi-te para a festa particular. A vista do apartamento seria deslumbrante não fosse à chuva e as nuvens pesadas, que permitiam que apenas os postes de luz mais próximos fossem vistos. Mas o barulho do mar era inconfundível. E acalmava, trazia de volta uma sensa-ção de paz perdida.
A conversa inteligente e o número reduzido de pessoas acabaram por relaxá-la. Isso e a quantidade inacreditável de vinho que ela ingeria em doses cada vez maiores. E quando menos se esperava a bandida pulou novamente para fora depois de anos e mais anos quieta e adormecida, fingindo-se de morta. Não deu tempo para mais nada, quem não estava com vontade de participar do bisonho espetáculo teve tempo apenas de sair de mansinho de perto da bandida. Quem não notou que ela estava instalada confortavel-mente na sala pode se divertir como poucas vezes na vida terá outra oportunidade.
E quando tudo finalmente acabou ela ouviu as duas coisas que mais a magoaram em to-da a sua vida medíocre. A primeira ela nunca vai contar para ninguém, afinal de contas o que um bêbado fala sobre e para uma vadia, não deve nunca ser levado em conta ou mesmo repetido em voz alta por quem quer que seja, mesmo que seja apenas uma ban-dida que adora azarar com a vida de outras pessoas.
Mas a segunda coisa que ela ouviu ainda ecoa em seus ouvidos. Ainda dói em seu cora-ção e está registrado mais profundamente que uma tatuagem. VADIA. Assim, simples. VADIA: por transar com o meu melhor amigo, por não respeitar a amizade que existia entre nós dois e entre vocês dois. VADIA: por não se respeitar e por não poder ficar 10 minutos com as pernas fechadas para qualquer coisa que se mexa.
A resposta dela foi mais direta. Um tapa: seco, duro, inesperado, sem força e sem direito de revide. Mas um tapa que ecoou por todo o apartamento e fez com que suas mãos fi-cassem doloridas, marcadas, caídas flácidas ao lado do corpo que ainda cheirava a sexo e trazia em seu desalinho as marcas do ato que tinha acabado de participar. Qual a vio-lência pior, ser julgada por algo que nem mesmo pode ser considerado crime ou se de-fender sem argumentos?
A dor do julgamento feito assim às pressas e com uma frieza a que ela não estava acos-tumada fez com que o revide tenha sido mais duro do que ela poderia imaginar. Nunca antes havia batido em alguém, mas a sensação foi maravilhosa. O poder que isso repre-sentou para ela abriu sua visão para a fonte inesgotável de poder que o abuso da força física pode proporcionar.
Mas que preço ela precisou pagar para saber disso? A perda de alguns bons amigos e a descaracterização de sua própria personalidade.
Talvez tenha sido a pior transa da vida dela, talvez não. Talvez tenha sido um ato sem a menor importância. Talvez não. Mas o final de mais aquele caso de uma única noite com certeza deixou marcas permanentes em sua torturada alma.

Sunday, October 05, 2008

Tangos e outras músicas



Bel Góes - Tem pouco tempo ouvi alguns esporros que mexeram comigo, balançaram muito minha estrutura e abalaram minhas mais profundas certezas e convicções.

Nunca fui de dar muita atenção para o que as pessoas pensam ou falam de mim ou comigo. Mas dessa vez calou fundo. A mesma frase veio de um guri de 20 anos e de um homem de 40. Para terminar uma grande amiga me disse que tenho que falar para fora. Isso explica porque ninguém entende o que eu falo, nem mesmo eu.

E aí o que agitou a lama que fica lá no fundo foram duas músicas. Na verdade várias, mas essas duas me fizeram ver o quanto tenho andado inexata, escolhendo caminhos equivocados. A primeira faz com que eu saia dançando, rindo, pulando e que me lembre das aulas de dança que tive no final de um namoro. Coisa maravilhosa que é final de namoro, a gente sempre descobre um milhão de motivos para ser feliz, para sair com os amigos e reclamar da sorte madrasta que fez com que o nosso par perfeito simplesmente fosse embora.

A segunda música sempre foi fonte de preconceito para mim. O mais elegante que conseguia falar sobre o ritmo era música de velho. Mas aí chegou o ano de 2008, um ano que já haviam prometido minha vida iria mudar de uma maneira que não teria mais volta, não teria mais um ponto de retorno... (ei guri, tá vendo, você tinha razão!)

Depois de passar alguns milênios convivendo com as pessoas, mas sem deixar que elas se aproximassem demais, resolvi baixar a guarda. E que maravilha, conheci pessoas lindas, que de outra maneira não entrariam na minha vida. Uma dessas pessoas me apresentou uma nova forma de ouvir, sentir, degustar e principalmente, me ensinou a gostar de tango. Sem nenhum tipo de artifício. Sem mentiras e truques acabei descobrindo o quanto é visceral, assim como eu. Diferente do flamenco, que sempre amei e da dança espanhola, que tentei aprender, o tango acabou me mostrando um lado meu que mantive mascarado por mais de 20 anos. É muito bom, quando meu coração bate no mesmo ritmo da música, quando a boca seca e as pernas simplesmente seguem o ritmo.

Não sou de dar conselhos, mas deixo uma dica para quem quiser seguir: dancem, bailem, coloquem o corpo em movimento. A única coisa que interessa é ser feliz e se os problemas não tiverem solução, nem pensem nele.

Ah! A primeira música é do filme Inside Man. Escutem, vale a pena sair dançando por aí!


Vida que segue



Bel Góes - Sabem esses filmes sobre amizades eternas, com reencontros emocionantes e segredos ditos a meia voz? Sempre gostei desse tipo de filme. Não aquela coisa piegas e sem graça de amigas para sempre, papo de mulherzinha fazendo chá, gritos histéricos e acusações de traição. Mas aquele tipo Lendas da Paixão, em que a amizade e o amor entre os irmãos é tão forte que um deles é capaz de atravessar o campo de batalha inimigo sob uma saravaida de balas para resgatar o corpo morto de seu irmão caçula e arrancar seu coração inerte para enterrar no lugar onde costumavam brincar e onde foram felizes pela última vez. O então os pactos eternos que duram um verão (ou a vida inteira). Meninos que crescem juntos no mesmo bairro e passam por poucas e boas e depois de adultos continuam sendo amigos, nunca se encontram, não podem mais se ver, mas não podem esquecer a importância que eles têm um na vida do outro.

Tenho uma amiga assim. A primeira lembrança de amizade que tenho é com ela. As confidências, risinhos, amores eternos que duraram uma única tarde de chuva, as brigas irreconciliáveis, o choro doído do primeiro fora. E também a primeira lembrança da dor da despedida é com ela.

Ontem fiquei pensando em todos os meus amigos que se foram, em todos os amigos que perdi. Não falo de amizades que não tem princípio nem fim, das que sempre existiram e que a gente um dia esbarra e sem saber como ganhamos mais irmãos e irmãs. Falo dos amigos que passam por nossas vidas, encostam um dedo mágico para nos fazer ver o quanto o mundo é colorido e depois simplesmente desaparecem no éter.

É tão grande o número de amigos que se foram, que não estão mais aqui que cheguei a conclusão que estou muito velha e cansada para novas amizades. Amigos são insubstituíveis, não é como uma calça jeans que você pode sempre comprar uma melhor, mais nova, mais bonita, mais na moda.

A perda mais recente fechou um ciclo na minha vida. Foi exatamente como a primeira. Uma noite de chuva, a pista molhada, ensebada. Um motoqueiro sem capacete e uma curva fechada demais. Voltei a ter 10 anos, vi novamente o cabelo louro do Du, os olhos verdes brilhando no meio da chuva enquanto a gente brincava no recreio. Ouvi sua risada, senti o cheiro bom de roupa limpa e sabonete de neném. Mas a dor é outra, mais madura, mais trancada. Ela se junta com todas as outras dores de perdas irreparáveis, de traições, de frustrações e aí o ciclo não se fecha. A roda não é perfeita.

Mas a vida se encarrega de mostrar que tudo sempre retorna ao ponto de origem. No dia seguinte ao enterro o pai do meu amigo me entregou uma caixa toda suja de terra e lama. E para minha surpresa eu ainda tinha a chave do cadeado. E todos juntos, todos os amigos que sobraram, abrimos o baú da nossa infância revisitando os itens esquecidos de crianças inocentes. As figurinhas, piões, joguinhos, cartas, anéis... tudo como deixamos para trás, mais de 20 anos guardados em uma caixa de ferro, enterrada em um jardim. E as lembranças apenas nos mostram que não existem amizades eternas. Que nada é eterno. Mas que a vida segue seu rumo sem se deter por nada, se dar tempo para que a gente se acostume com as pedras que caem.

Wednesday, August 01, 2007

Agora que acabou...


Aloísio Santos ___________ Aquele café bem perto do Largo da Carioca guarda uma medalha Pan-Americana. É prateada e tem quatro anos de vida. Na verdade, uns anos a mais do que isso, talvez. Claro que pra conseguir colocar uma dessas no peito é necessário dedicação ímpar. Anos de treinamento, noites mal dormidas e, logicamente, muita porta na cara. Afinal, quem vive de esporte amador não tem patrocínios, tem “paitrocínios”. Essa medalha, por incrível que pareça já ouviu até um de ídolo medalhista, o seu total desprezo pelo esporte que ele praticava. Algo parecido como a fábula do patinho feio. Mas mesmo assim, quem continuou na equipe, tinha a torcida de todos aqueles esquecidos da festa de quatro anos atrás. Havia a esperança que algo mudaria na vida de todos. Hino nacional. Um Pan na terra natal. Mas sabiam que, com seus pés no chão pouco aconteceria, daí pra tocarem suas vidas em suas identidades secretas era o caminho sensato a seguir.

Era engraçado acompanhar tudo pela tv e quem sabe ver um filme da própria vida passando pela cabeça. Mas mesmo assim torcia e poderia fazer os mesmos movimentos dos seus antigos companheiros como se estivesse lá, jogando. Batalhando por outra medalha. Voltar no tempo provavelmente daria a sensação de que suas prioridades eram outras naquela hora. Tudo isso envolto em livros, cafés, quiches e na prateleira com memorabilias, que era o único sinal visível a todos, daqueles dias de luta.

Chato perceber que heróis de carne e osso não são como os mutantes gloriosos dos desenhos. Notar que a memória que as pessoas têm deles vai até onde as notícias conseguem saturar. Que os louros da vitória não garantem novos desafios a não ser o de continuar lutando. E que no fim do dia, voltarão pros seus lares com o peito cheio de orgulho não por ter feito algo que gostam e vencer com isso. Mas simplesmente por terem chegado ao ponto onde queriam chegar com todo o sangue, suor e lágrimas que derramaram. Agora tudo acabou. A cidade voltará à sua rotina de sempre. Pira apagada. Novos heróis em seus tronos instantâneos e temporários.

As notícias de hoje são as mesmas de todos os dias. Todas aquelas em que temos a infelicidade de ver, mas sempre atiçando a nossa curiosidade louca de saber onde tudo pode parar. Aquela sensação de fim de festa e que com os holofotes apagados, os templos parecem estar fadados a criarem teias de aranha gigantescas. Do tamanho do sonho de todos os esportistas de conquistarem seus olimpos particulares.

E a vida vai continuar naquele café no centro do Rio. Boa amizade, boa companhia, boa conversa, “tudibom” como costumam dizer. A medalha estará lá feliz da vida por ter seu brilho. E querem saber o que aconteceu com aqueles por quem ele torcia esses dias? Repetiram seu feito e colocaram mais medalhas na estante para provar que estão vivos, de carne e osso e fazem daquilo que gostam, o seu gesto heróico.

Wednesday, March 07, 2007

Lua do Dia


Aloisio Santos _______

Tem pelo menos uns 10 anos que sempre faço um texto pelo dia de hoje a todas as mulheres da minha vida. Mãe, irmã, primas, amigas, namoradas, ex-namoradas, amores platônicos. Não por fazer média, nem para fazer imagem de um homem contemporâneo, sensível, ou até mesmo para ganhar pontos com elas. Tanto que os textos ao meu ver, pelo menos, não tem cheiro de patchouli quando lido, não são panfletários e nem mostram uma falsa homenagem. Coisa de um dia só. Mas retratam mais o meu dia-a-dia. Meu olhar e a participação delas nos fatos que presencio desde que me entendo por gente. Tanto que fazia isso com uma regularidade que vai além do oito de março. Pode ser num dia qualquer. Mas tem tempos que não guardava uns minutos para isso. Trabalho, problemas, amores correspondidos ou não e que me faziam ter a cabeça completamente vazia a ponto de escrever algo que valha.

Talvez a Lua que vejo sobre a Cidade Maravilhosa desse o frescor na mente que precisava. Pela a janela do metrô via casas, casebres, fábricas tendo apenas o olhar da Lua sobre elas. Como se a velocidade sobre os trilhos não importasse. A cena que fiz na minha mente já estava fotografada. Isso certamente não aconteceria num dia de sol mesmo que com um céu de brigadeiro. Talvez porque temos na Lua a figura feminina, de complacência, de inspiração, de afago na alma. Ou por simplesmente por ser um substantivo feminino.

É difícil vermos o sol. Causa dor na vista. Precisa-se de artifícios para ver sua circunferência. Ele nos agride com a fúria e a testosterona, mesmo que seja um sinal de vida, de luz. A lua tem a calma das mães, o carinho dos amores que nos colocam em seus colos todas as dores do mundo para serem totalmente esquecidas. Podemos ficar por horas a olhar suas fases, o tom branco que nem uma tela vazia demonstra. Para ela temos o olho a olho, sem dor. Ela nos mostra suas crateras, como quem dissesse que também tem a sua vida bastante marcada, mas nada que umas voltas sobre a Terra não resolvam. É a ela que falamos sempre com o peito cheio de esperança, sua maior amiga feminina.

Vi um alfabeto inteiro de todas as luas. Leonices, Alessandras, Marines, Giseles, Mônicas, Roses, Anas, Carolines, Patrícias, Denizes, Elianes, Lisas, Sonias, Selmas, Flavias, Beatrizes ou simplesmente seus apelidos que se autodenominaram tão diminutivos e carinhosos. Ju, Mo, Ro, Pri, Kel, Nininha... E por um momento virei-me em direção às pessoas dentro do trem. Parecia não darem a menor atenção ao que acontecia lá fora. Queriam apenas voltar para suas casas. Maridos, namorados, filhos queriam saber que um bom sorriso iria recebê-los pelo dia de batalha. Elas lá dentro do trem riam completamente como crianças, falando coisas mil delas mesmas ou sobre o nada. Tinham esquecido completamente seus problemas depois de desligarem o ar e a luz do escritório ao fim do dia.

Não sei o que farão hoje. Receberão flores, galanteios, presentes, cantadas diversas. Umas bem sutis e agradáveis e outras que não se fala nem em pensamento. Não sei se sou digno de dizer algo ou fazer alguma coisa. Apenas sei que a Lua, assim como as mulheres no metrô, estarão por lá. Também não sei se ela me recebe mesmo quando está nova ou minguante. Mas posso apostar que a cada dia, cada fase, tenho novos sonhos. Alguns belos, outros pequenos e talvez enormes, e muitos bregas demais pra se dividir com uma alma feminina. E certamente me sentirei em casa.

Thursday, February 22, 2007

Mas que @#$*% é essa?


Aloisio Santos__________

Como é que alguém tem a coragem de deixar um filme do @#$*% Scorsese na última sessão de um dos @#$*% piores cinemas da cidade? Tudo bem. Culpa minha que o tempo me impediu de ver “Os infiltrados” no ano passado. Mas a uma semana do Oscar isso não se faz. Pra piorar um @#$*% de um Zé Mané na cadeira vizinha, não quis guardar meu lugar enquanto ia comprar pipoca e refrigerante. Oras, passar 2 horas e meia com fome, de noite seria demais. Se a @#$*% cadeira não estivesse presa ao chão, eu bem jogava na cabeça desse @#$*% cara.

Parece que depois de fazer um @#$*% filme sobre a máfia italiana (Os bons companheiros) e da máfia dos cassinos de Las Vegas (Casino), um dos meus diretores prediletos resolveu cavar fundo na @#$*% máfia irlandesa. Resultado de um roteiro de um filme chinês. Afinal, o cinema oriental é uma das maiores @#$*% fontes de inspiração do cinema americano, além do Paul Haggis e do James Brooks. No final das contas vemos a maior enxurrada de @#$*% caras conhecidas por quadro em um único filme, só perdendo pros @#$*% filmes catástrofes dos anos 70. Tinha até o Alec Baldwin. Mas um @#$*% Baldwin, qualquer produtor consegue colocar em um filme.

O bom do Scorsese é que ele consegue fazer @#$*% filmes sempre com aquela câmera ágil e cortes rápidos e secos que parecem um @#$*% videoclipe da MTV. Mas isso ele já fazia bem antes do canal de música. E num filme como esse faz todo o sentido. O problema é que o pessoal da Costa Oeste americana parece ter uma @#$*% raiva dele. Talvez porque seus filmes retratem mais a @#$*% neurótica Nova Iorque e a Costa Leste do país. Parece briga regional, e é. Pois bem que das 7 indicações que Scorsese teve, ainda não levou nada pra casa. Mesmo que seus filmes já tenham ganhado o prêmio máximo, como foi o caso de “O aviador” com o @#$*% Di Caprio. E não é que dessa vez, ele trabalha bem?

Mais incrível é ver o Jack @#$*% Nicholson com suas caras e bocas sendo um chefão de alguma máfia. Se fosse de um @#$*% time da NBA, até vai. Mas mais um ponto pra Scorsese, porque é um dos trabalhos mais siginificativos de Nicholson. Um cara que já tem Oscar na estante e já ganhou 60 @#$*% milhões de dólares em um único trabalho. Por fora tem um Matt Damon fazendo papel de Matt Damon, um Mark Walhberg que já deixou de ser rapper faz tempo e um Martin @#$*% Sheen de quebra? Só faltou uma atriz boazuda pra completar a @#$*% festa.

Quem sabe dessa vez o pessoal da academia acorde e deixe que a profecia se cumpra, deixando “Os infiltrados” com a maior parte dos @#$*% prêmios. E de preferência com um deles pro diretor. Ele já fez por onde há décadas e é um dos mais @#$*% incríveis dele em anos. Agora o seguinte... Porque tanto @#$*% em um texto como esse? Oras. Se trata de um filme do @#$*% Scorsese, man!

Wednesday, February 21, 2007

Um por dois ou dois por um?


Aloisio Santos_______

Filho da mãe do Spielberg! Pela primeira vez estou xingando um cineasta que adoro porque me faz ver um filme por causa de outro. Graças a ele, a dupla de diretor e roteirista Eastwood e Haggis (parece firma de advocacia) se juntou à produtora Dreamworks para contar duas versões de uma mesma história; a invasão da Ilha de Iwo Jima. A versão japonesa e a vista pelos americanos, que usaram uma foto como um dos emblemas de suas vitórias na II Guerra Mundial. O que importa é que bem que poderiam fazer um filme de três horas em vez de duas de dois... Talvez o efeito e o resultado fossem mais positivos. Mas como todo mundo sabe que cabeça de produtor Hollywoodiano se liga mesmo em qual casa em Orange County vai comprar com esse filme, então é melhor nem questionar muito.

O que importa é que como dizem as críticas, a visão japonesa dos fatos é infinitamente melhor como filme do que o “americano” A Conquista da Honra, baseada mais numa turnê de falsos heróis de guerra, bancada pelas forças armadas com finalidade de angariar fundos. Como o título mesmo diz (Cartas de Iwo Jima), a narrativa corre de acordo com os depoimentos de comandantes, soldado dado às suas famílias durante o confronto que em vez de quatro dias, durou quarenta. Mas é impossível hoje em dia pensar em um filme sobre a Segunda guerra, com personagens japoneses, sem o Toshiro Mifune ou dirigidos pelo Kurosawa. Eles sabiam dar o recado. Não que Eastwood não saiba. Afinal ele revisou o western, o filme de boxe e a biografia musical, (Imperdoáveis, Menina de Ouro e Bird, respectivamente), mas não tem como não notar a influência direta do Spielberg em enquadramentos e principalmente na fotografia quase sem saturação nas cores que determinam uma geologia inóspita e capaz de fazer todos os combatentes terem crises de desinteira.

O filme é carregado nas costas pela interpretação de Ken “O último samurai” Watanabe, o comandante das tropas, mas quem ganha a atenção da platéia é o coadjuvante Ninomiya que faz o padeiro levado contra sua própria vontade a uma guerra, dando a demonstração que os japoneses entraram nessa de gaiato e se deram mal. Quem viu “Tora Tora Tora” pode confirmar. Não tem como não entrarmos na pele dele e torcer a cada vez que a sorte (ou os deuses) o tira do fim iminente. Ele encarna o homem comum que bem poderia estar em casa cuidando da família e da vida em vez de ser apenas uma peça nas guerras que até hoje questionamos o porquê das mesmas.

O filme é apontado como um novo clássico. Pode ser que o tempo diga sim. Mas o próprio público americano, preguiçoso em ler legendas (o filme é todo em japonês) resolveu dar esse tributo, indicando-o com o Oscar do ano. Realmente é um bom filme. Mas sinceramente, sem Mifune e sem Kurosawa fica difícil colocar num pedestal. Eles já estão lá por direito há mais de 30 anos.

Monday, February 19, 2007

Tá pensando que é a Rainha da Inglaterra?


Aloisio Santos__________

Ao chegar no ótimo Estação Ipanema para ver “A Rainha” de Stephen Frears (sim, eu também confundo com os ingleses Stephen Fry e Stephen Rea), tive a impressão de estar em duas situações. Um: Num congresso sobre geriatria, pois provavelmente eu era o único com menos de 40 anos na sala. Dois: Numa convenção de sósias da Rainha Elizabeth, pois todas eram senhorinhas que mesmo nos primeiros minutos do filme não paravam de fofocar das vidas alheias. E pensar que elas, 20 anos atrás, nos mandavam calar a boca no cinema. Elas precisam de um poço da rígida educação britânica. E justamente nesses primeiros minutos, ainda com o letreiro incial, a pose da atriz principal Hellen Mirren como num retrato oficial não deixa dúvidas a que ela veio. “É ela!” – dizem. Até a logo do filme é igual ao do grupo do Freddie Mercury. E geralmente em situações de extrema coincidência estética e de interpretação nos dão conta pra quem vai o prêmio por atuação no ano.

Mas esse tipicamente filme inglês mostra o início do governo do então moderno Tony Blair e a semana que se sucedeu à morte da Princesa Diana. Os bastidores desses dois governos. Comportamentos, atitudes, interesses e como uma das instituições britânicas mais veneradas desde o futebol e o sistema de transportes, lidou com o fato. Mas graças ao elenco de peso que tinha James Cromwell num auxílio luxuoso, um Tony Blair perfeito e uma Mirren que meses antes encarnou a Rainha-mãe, tornou tudo perfeito. Apenas a Rainha-mãe desse filme não tinha a aparência exata, mas incorporou bem a sábia e simpática pé-de-cana real.

A grande sacada deste “A Rainha” não é somente mostrar que Elizabeth é de fato a mão de ferro da família, nem um Primeiro Ministro querendo mostrar serviço (como sempre), mas em pequenas surpresas como ver uma idosa mandatária real de um país encara,r um Land Rover numa trilha esburacada, com a desenvoltura de um marine americano e ao mesmo tempo ter seu momento de ternura ao maravilhar a natureza. E claro, a velha troca de farpas entre o Parlamento e a Família Real, que sempre fez questão de mostrar que a Princesa do Povo era apenas mais uma dentre tantas infâmias que a história da realeza britânica nos mostrou. Também, quem manda ter príncipes patetas a cada geração?

Hollywood gosta de dar sua fatia de bolo às produções da Grã Bretanha, laureando com indicações, mas notadamente não são os maiores vencedores, o que demonstra que os americanos querem mostrar que o santo de casa deles, faz milagres. E melhor do que todos. Mas há de convir que aqueles de formação Shakespeariana são melhores do que os do Actors Studio em léguas de distância. E geralmente resultam em filmes mornos e lentos em narrativa em detrimento a um visual de pesquisa muito bem apurado. Mas não é este o caso de “A Rainha” que fez um bom pacote em tudo. Pena, que bairrismos à parte levam apenas o Bafta – a premiação máxima do cinema na Inglaterra. Mas que Mirren é ela, isso é verdade. E estejam certos de que perguntarem “Quem você pensa que é, a Rainha da Inglaterra?” em razão da sua audácia de encarnar mãe e filha em filmes diferentes, ela certamente dirá sim e dará as costas a todos, com a famosa atitude de uma realeza britânica.

Saturday, February 17, 2007

Novas linhas de dramas familiares



Aloisio Santos _________

Os anos 70 e o começo dos 80 no cinema americano foram muitos marcados pelos dramas. Mais precisamente os familiares. Parecia que os Estados Unidos ainda queriam exorcizar seus demônios após o Vietnã e o Watergate com histórias que poderiam ser a dos nossos vizinhos. Ou mesmo as nossas. Coisa de novela. Pais que brigam com esposas, que brigam com filhos, que não entendem seus avós, que não compreendem os tios e por aí vai. Separações e reconciliações. Moralismo a toda prova que cai sempre na programação da tv de sábado à noite hoje em dia.

Mas de tempos em tempos o cinema faz questão de renovar seus estilos e histórias. Tivemos um revival de musicais nos 80, uma aproximação com os épicos nessa década. E uma Hollywood agora mais próxima do cinema independente, tem também seus dramas. Claro que os diretores e roteiristas viram essa proximidade e talvez pensando nisto, resolveram colocar (ou tirar) os esqueletos dos problemas familiares das gavetas. O caso mais recente é um dos azarões do Oscar desse ano, “Pequena miss sunshine”. Basta ver que os diretores são famosos por realizar videoclipes musicais do Red Hot Chili Peppers, do R.E.M e da Janet Jackson apenas para citar alguns.

E claro que os cineastas independentes americanos adoram fazer gozação deles mesmos. E a família desse filme tem todos os estereótipos possíveis. Além claro, de dar alfinetadas no “american way of life”, pois ninguém é de ferro. E o interessante é que a família deste filme se choca com suas próprias posições e decisões perante suas vidas e a sociedade. Esse é o mote principal, e não um “road movie” como dizem. Seria simplificar o roteiro de 30 páginas a meros dois parágrafos numa linha só. Temos figuras interessantes. Um Greg Kinnear que faz o típico americano com síndrome de Lair Ribeiro, a (sempre) dona de casa amargurada Toni Collete (precisam dar papéis mais variados para ela), um Alan Arkin impagável como avô mezzo hippie, um Steve Carell surpreendentemente diferente do habitual (viu como faz bem pra um ator, uma mudança?), o adolescente rebelde sem causa e a pequena Abigail Breslin. A sunshine do filme.

O engraçado é perceber que apesar da sua indicação ao Oscar de atriz, a menina não rouba o filme, pois ela o faz como quem passa pela mesma situação. É uma criança e pronto! Aí o mérito é da direção e de um roteiro que faz deste road movie (ops!) muito mais do que se pretende. Mas um jogo de sete erros que viram mil e a família de pernas pro ar. Não apenas para realizar o sonho da menina. Mas para dar um sopro de vida e rumo que eles parecem buscar o tempo todo.

Por isso não estranhem se por algum acaso perceber em certos exageros do filme, vocês em situação igual. É apenas o novo drama familiar, com tintas independentes e muito atuais. Ganha o cinema, ganha quem o realiza, ganha quem vê, que sai de lá com seus órgãos devidamente desopilados por rir não da desgraça alheia. Mas provavelmente da sua.

Thursday, February 15, 2007

Perdeu-se na tradução.


Aloisio Santos ________

Foi com grande surpresa que o filme “Babel”, do incensado diretor mexicano Alexandro Iñarritu (de “Amores Brutos” e “21 gramas”) levou o prêmio máximo do Globo de Ouro desse ano. Mas porque a surpresa? Simples. De várias indicações aos prêmios da noite, não levara nenhum e no momento do anúncio, Scorcese já confiante, abotoava o smoking pra subir ao palco de novo pelo seu “Os infiltrados”. De certa forma foi uma reedição do que aconteceu no Oscar do ano passado com o filme “Crash”.

Mas aí mora a grande diferença. “Crash” é realmente um grande filme, enquanto “Babel” tem de grandioso apenas 25 minutos a mais na média de duração de um filme de cinema. O impacto do vencedor do Oscar do ano passado foi tão grande que fez com que pensassem o seguinte: No filme de 2005, havia o relato de todas as raças e etnias, assim como seus conflitos diários na louca cidade de Los Angeles. E a fórmula deu certo. Que tal se fizermos o mesmo, mas através de uma visão literalmente global? E por conseqüência maior? Vai ser um estrondo - pensaram os produtores. Sendo assim, mãos à obra. O grande problema é que nessa Babel, algo se perdeu na tradução. Ou seja, no roteiro. De todas as histórias isoladas que se intercalavam no filme (já está se tornando um método batido de se fazer roteiros), apenas a da japonesa surda tem verossimilhança e impacto desejado. As demais histórias lembram antigos episódios de desenhos animados onde se para resolver as confusões, se criam outras e aí se instaura a bola de neve. Afinal que casal vai tentar uma reconciliação numa viagem-excursão para um país em pé de guerra? Que imigrante ilegal faria a besteira que fez no filme? A dos irmãos briguentos tem lá o se mérito por mostrar coisas de sua cultura que os noticiários não apresentam. Atuações à parte, vemos um Brad Pitt sem maquiagem, mas com os mesmos trejeitos de sempre. Mesmo assim consegue uma atuação tão boa desde “12 Macacos” e Cate Blanchett dá o seu banho de costume. A tal japonesa e a mexicana desesperada ganharam indicações por suas atuações, mas pelos comentários, os prêmios para atores e atrizes já têm os seus donos.

No mais, uma boa edição tenta render o filme de forma menos sonífera possível. E Inarritu repete o bom trabalho que fez em “21 gramas”. A câmera inquieta (outro artifício já um tanto batido) mostra nuances como apenas ele parece fazer e as experiências sensoriais da japonesa são exepcionalmente demonstradas, como na cena da balada (eita termo desgraçado esse!). É um bom filme, embora um tanto esquecível. Digamos que o impacto já foi feito e por isso a impressão de que “Babel” é só mais um do gênero nos vém à cabeça logo ao sair da sala.

Wednesday, December 20, 2006

Pequenas histórias de Natal


Aloisio Santos ________

Todos têm o seu Natal inesquecível e aposto que nessa mesa há conteúdo pra ficar ouvindo e contando até às festas do ano que vem. Histórias tristes, Alegres. Ou até por falta de histórias que um ano específico, já rendem um bom caso. É mais ou menos como aquele slogan do programa Global dessa época: “Uma noite com o Rei, a gente nunca esquece”. Pra ser sincero, lembro bem até da primeira das apresentações especiais pra TV do carinha que costumava ser uma brasa. Eu tinha acabado de ganhar quatro jogos de futebol de botão. Um do Vasco, um do Palmeiras, um do Corinthians e um do Flamengo. Nem esperei a mesa. Fiz do desenho dos tacos no chão pra marcar as quatro linhas e joguei até cansar enquanto aquele cantor cantava sobre sua pequena cidade natal, no interior do Espírito Santo. Nem dei atenção. Também nunca fui fã, ainda mais agora que ele já não cria e ainda esteja com mais manias do que o Michael Jackson.

Mas lembro-me mais das festas de Reveillon. A que choveu e obrigou todo mundo a correr da praia feito desalmado em direção aos carros. A primeira cascata do Meridien. A daquela em que o Centro Comercial de Copacabana pegou fogo. E sempre esperando pelo primeiro raio de sol no dia seguinte. Como se fôssemos o Supreman tentando revigorar suas forças pra encarar o que viria pela frente.

Dos Natais, pouco sobrou depois que deixei de ser criança e de uns 10 anos pra cá principalmente, já que meu pai é que fazia questão de ter tudo o que tinha direito. E isso significava ou passar as festas em Minas com o resto da família, ou receber toda a horda ao mesmo tempo aqui no Rio. Mas certos Natais se superam em pequenos gestos que você se dá conta pouco depois somente. E essa história em particular tem a participação de uma pessoa bissexta dessa mesa e que vai se identificar quando ler essas linhas abaixo.

Eu estava prestes a voltar a estudar no Sacre Couer, depois de 3 anos fora. E naquele ano ganhei um amigo que assim como vários outros dessa mesma época, felizmente trago uma fraterna amizade até agora. E seus pais insistiram em me convidar pra passar a noite de Natal com eles e a família. Aceitei a princípio como um gesto de agradecimento pela força que me deram pelo meu retorno. Mas foi bom porque na mesa onde estávamos apenas nós os homens da reunião, ouvindo histórias de uma pessoa (por sinal o pai desse meu amigo) que tinha a particularidade de falar bem baixo. Quase inaudível. E compreendia apenas as primeiras palavras de cada frase, que eram as que ele proferia em tom mais alto. Geralmente eram histórias que passavam pelas fases da própria história brasileira que então desconhecia e por causos que passou quando mais jovem. E pra variar Bob Charles na TV. E pra que dar atenção ao Rei? Tenho mais o que fazer (comer e beber) e ouvir.

Prometi sair por volta de 11 horas. Naquele tempo os pré-adolescentes tinham horário pra voltar pra casa. E também teria de encarar a ceia da minha própria família. Despedi-me e já na porta, dando o último tchau que a mãe desse meu amigo me interrompe e vem com um pequeno embrulho. Uma real surpresa. Quem poderia esperar que de convidado de primeira viagem ainda ganhasse presentes numa festa familiar?

“É só uma lembrança. Comprei hoje, pois não sabia se você viria”. Palavras dela. Sem graça pelo gesto agradeci pela surpresa e deixei pra abrir o embrulho em casa. E era realmente uma lembrança. Um par de meias esportivas. Qualquer outro pré-adolescente no começo dos anos 80 odiaria aquilo. Mas na hora notei que tinha um discurso que vinha além de um gesto de agrado. Pra mim era como um pequeno passaporte. Eu era considerado aceito no novo meio que acabara de entrar. E desde então todos os anos seguintes tinha praticamente a obrigação de ir àquela casa nem que fosse pra literalmente dizer “Feliz Natal” para todos. Logicamente com o tempo isso foi minguando, mas não culpa minha. Afinal tinha os anos que minha família vinha e teria de dar atenção a eles. Anos em que namoradas na ocasião me proibiam deixar o sofá e o prato da ceia com uma migalha sequer de farofa pra ir a qualquer lugar. Circunstâncias... Sei que essa família esse ano não terá as histórias daquele que tinha uma voz que sumia aos poucos e assim como no ano em que perdi meu pai, provavelmente as festas terão outro sentido. Mas quem sabe como no singelo gesto das meias, a aceitação não terá sentido de inclusão, mas de ponderação de novos dias. Onde a inclusão está na busca do que todos precisam e desejam em dias de dezembro. Um pouquinho de paz, união e felicidade. Quanto ao Rei eu ainda não esqueci. Por isso continuo dispensando até de deixar o som da TV ligada nessa hora.

Friday, November 24, 2006

Sabe com quem está falando?

Nessa mesa de bar tem todo o tipo de gente, mas de cabeça, além de mim, vejo pelo menos quatro pessoas ligadas à área de comunicação. Dois jornalistas e dois publicitários. E volta e meia surge a discussão sobre o que é notícia. O que vem a ser uma boa notícia. É relevante ou não? E tudo isso voltou à mente ao deparar com quase uma página inteira do "O Globo" sobre o assalto seguido de morte (gostaram do termo jornalístico?) de uma ricaça no Leblon.

Poderia ser qualquer ricaça, uma socialite de São Conrado; uma "grande atriz" namorada de um diretor global; a namorada daquele jogador de futebol que sempre quando está pra ser contratado por um time europeu, seu advogado esculhamba com tudo e ele volta a mostrar suas comemorações de "eu te amo" na camisa, por baixo do uniforme, nos campos de várzea daqui mesmo. Mas pasmem. Era a segunda (ou terceira) mulher do irmão do dono de uma grande empresa. E que por sinal, já era o segundo (ou terceiro?) marido dela. Revista de fofoca e enredo de novela mexicana perde longe.

Na boa, porque o Manoel Carlos não previu isso e botou na novela, em vez de um simples atropelamento de uma grávida num ponto de ônibus? Saddam ta lá longe, condenado. O Bush segurando no peru de ação de graças. O Lula ainda não sabe de onde veio o dinheiro do dossiê. Tenho um vizinho que rouba o Segundo Caderno do meu jornal. Não sei o que fazer com minhas contas, já que quem me deve não me paga (seria um caso macro ou micro-econômico?). Qual o resultado da Mega Sena? Sabe-se lá se vai dar sol ou chuva no fim de semana e o que importa é que ainda tem gente morrendo de fome no séc XXI e por incrível que pareça na portaria do meu prédio. Mas me desculpem a família da socialite, pois a violência mata muito mais gente do que se imagina, logo quando você chega no Rio de Janeiro, por uma via expressa. Então porque cargas d'água é tão chocante, relevante, extasiante, fulgurante, flavorizante e Flávio Cavalcante dizer, que a terceira mulher (em seu terceiro casamento) do irmão do presidente de uma empresa morreu, só porque não entregou a droga do seu Mercedes ou do seu Rolex pro bandido quando ele a abordou? Já vi gente morrer por muito menos do que isso... Por diabetes, hipertensão, velhice, câncer, febre tifóide, dengue, choque anafilático, falência múltipla dos órgãos (outro termo médico-jornalístico), aids e lá vai pedrada só porque não conseguiram ser atendidos num hospital na hora que tiveram seu piripaque. Até no Copa D'or acontece isso. E nem por isso são relevantes o suficiente pra garantir uma busca concreta dos problemas.

Pode apostar. Daqui a pouco vão fazer uma ONG chamada "socialite-sou-da-paz", glorificando todas as ações que ela um dia poderia fazer se ainda estivesse viva (não estou duvidando que ela o fizesse, ou seja, boa pessoa). E todos caminharão num domingo de sol pelo calçadão com camisas brancas patrocinadas pelo Viva Rio e clamando pelo seu direito de ir e vir de Mercedes sem problemas e com aquele olhar blasé pros garotos de rua que tentam faturar um troco como malabaristas. Afinal, as terceiras mulheres, em seus terceiros casamentos do irmão, do primo, do amigo, do tio de terceiro grau, que veio num navio de imigrantes nos anos 20, fundador de uma grande empresa, são gente também. E nosso país com isso vai perder muito, pois menos estrangeiros investirão num país onde é impossível andar na rua em paz.

Quer saber? Acho que vou cancelar a assinatura do jornal e viver apenas das noticias que todos comentam na rua... São as mesmas, relevantes, importantes, interessantes e não pago nada por isso. À propósito, nem botei foto nesse texto, porque também não achei relevante.

Aloísio Santos

Sunday, October 22, 2006

O Mutley dele era melhor



Aloisio Santos________ Como falar de F1 no país do futebol e que só acordava domingo cedo pra ver o Ayrton Senna? Comparando com futebol claro! Pra começar vou dizendo que sou um Ferrarista. Um torcedor da Ferrari. É algo que veio acompanhando todas as corridas de fórmula 1 desde os tempos do Emerson Fittipaldi. Mas algo sempre incomodava em torcer pela escuderia do cavalo negro rompante e aí vai a comparação com o futebol. Imagina você em plena época de preparação para Copa do Mundo vê que na escalação da seleção tem um cara chamado Maradona entre os convocados? É mais ou menos essa sensação que tenho ao ver o Michael Schumacher no cockpit daquele carro vermelho. E olha que já passamos pela experiência de ver o Alain Prost no mesmo lugar. Mas ele era o “professor”. Ele podia.

Vão me jogar todas as latas de cerveja que existem nessa mesa por causa do que vou dizer. Mas sou um dos defensores da tese que o alemão é o Dick Vigarista da categoria e não o Pelé como a maioria apregoa. A grande diferença é que ele tinha um “Mutley” mais eficiente na sua carreira de sucesso. Um não, vários. Isso tudo fez com que os últimos 12 anos fossem mais chatos de acompanhar. Mas sou mais fã de corridas do que de pilotos. Isso não se compara até o momento em que você entra em um deles, mesmo parado. A sensação é de marcar o gol de uma final num Maracanã lotado. Ou de uma criança dentro da fantástica fábrica de chocolate. Conhecimento de causa. Mas vamos à teoria dos Mutleys que o Schummi teve...

Dois dos sete campeonatos vencidos por ele foram com momentos de deslealdade, jogando Damon Hill e Jaques Villeneuve para fora na última corrida. Dos outros cinco, acredito que um ou dois, foram por merecimentos, já que ele teve como companheiros de equipe o Eddie Irvine (Um dos piores e mais desleais pilotos da história. Era tão ruim que no início de carreira esperava o Rubinho acertar o carro no box pra fazer igualzinho) e claro, o Rubinho. O eterno cara que se deu conta que estava realmente na fábrica de chocolates e ainda ganhando por isso, que simplesmente baixava a cabeça aos mandos e desmandos do alemão frente à equipe para que tudo desse certo apenas a favor dele. Até fazer o brasileiro pisar o pé no freio pra que ele ganhasse uma corrida. Ou todos os mecânicos perderem 15, 10 segundos a mais no box com brasileiro.

O alemão não teve realmente ninguém a altura de sua capacidade, mas ele não correu com o Piquet, com o Prost, com o Mansell, com o Alesi, com o Bergher, com o Senna ao mesmo tempo em uma temporada. E olha que alguns deles ainda tiveram como “companhia” nada mais nada menos do que o austríaco Niki Lauda (outro bom merecedor de uma Ferrari). Ele não passou uma temporada correndo com Jody Scheckter, Fittipaldi, Reutmann, Stewart, Pace, o Andretti pai, o Villeneuve pai (mais um merecedor de uma Ferrari) e o próprio Lauda ao mesmo tempo. Sem contar que teve nas mãos um carro impecável, e aí talvez, a única amostra de algum talento, pois dirigir uma Ferrari não é pra qualquer um. Mesmo assim em 12 anos conseguiu 6 títulos. Mas posso prever uma coisa, se depender do Alonso, esse é um recorde a bater fácil. Afinal o espanhol ainda tem mais uns 12 anos de F1 pela frente (a diferença de idade entre ele e o Schumacher) e já começou com dois títulos de vantagem. Fazer mais cinco a essa altura e com o que mostrou ser capaz não parece ser difícil.

Bom, desligo a tv, logicamente emocionado de ouvir o tema da vitória tocando no GP Brasil, mesmo com o Felipe Mala (ops) Massa vencendo a corrida. E não posso deixar de agradecer ao alemão por nada... Por mostrar a face escancarada e desleal de um esporte considerado de “elite”. Por mostrar que ele não é o Pelé da Fórmula 1. Apenas um Dick Vigarista que tinha um Mutley que não fazia trapalhadas e por isso vencia fácil. Pra mim já vai tarde.

Monday, October 09, 2006

Manfredini



Aloisio Santos _____ Quem conhece o Rio de Janeiro e gosta de boa música conhece bem uma loja de discos tradicional em Copacabana, a Modern Sound. Pois bem, ela é conhecida por ter em seu acervo, tudo o que você não conseguiria achar em lugar nenhum. Até mesmo em tempos de internet. Mesmo se eles não tiverem na hora, não há problema, eles mandam um Indiana Jones caçar nos confins do mundo a sua iguaria. Mas tudo tem seu preço. Essa loja também tem a má fama de fazer com que os compradores cheguem lá com carrinhos de mão cheios de dinheiro e sair sem nenhuma roupa no corpo e apenas um cd. Mas também é um bom lugar para pesquisar, por isso muitos músicos dão uma passada para ver coisas antigas, coisas novas e assim buscar inspirações para seus álbuns. E também trocar uma idéia com o Amândio, um dos melhores e mais antigos dj’s que já vi.

Hoje, ela ocupa todo o espaço de um cinema e de mais duas lojas e virou uma megastore-café-lounge-livraria-banco 24 horas-farmácia de plantão-mercadinho dia e noite. Mas até poucos anos atrás vendia apenas vídeos, alguns livros ligados à música e cinema e discos de vinil. Aos montes. Tanto que as novidades que vinham de fora ficavam nas próprias caixas de papelão. Era um tempo que internet não existia, ou estava no berço e troca de arquivos em mp3 impossível. Daí tínhamos que amanhecer na porta pra ter um “Kill’em All” do Metallica antes de alguns mortais tupiniquins. E para facilitar a vida dos aficionados, deixavam pequenos bancos onde você simplesmente pegava e fuçava disco por disco nas caixas sem acabar com a sua coluna.

Num tempo onde todos pareciam vir de um show de heavy metal que eu e um amigo fazíamos a nossa “ronda” na busca de novidades da loja. Nem sei porque me submetia àquele ritual masoquista, pois não tinha um centavo sequer pra nada e os vendedores já manjavam o ritual da turma, mas gostavam de dar um ar de superior por trabalharem lá e dizer que entendiam de música. Mas nesse dia, pelos idos de 1986, esse meu amigo me cutucou e apontou pro lado. Vi apenas um cara barbudo, de óculos e na hora me lembrei de um vídeo onde ele bradava em alto som, coisas da natureza humana e que brigar não havia sentido se não havia motivos ou vontade. E meu amigo me cutucava a cada dois segundos que me impedia de fazer minha pesquisa musical nas caixas de papelão e quase que gritei no meio da loja... “Tá! Já sei quem é! Quer que eu faça o que?”. Pois nós cariocas temos um certo jeito de tratar as celebridades como nossos vizinhos. Tirando um ou outro, pelo menos na Zona Sul da cidade, elas são pessoas que realmente podem ser seus vizinhos, por isso não nos jogamos em cima deles pra pedir qualquer coisa. Ainda mais hoje que com qualquer celular você é um verdadeiro paparazzo.

Notei que meu amigo queria uma lembrança daquele cara que estava despontando e começando a divulgar o segundo álbum de sua legião de músicos. Não tinha nada na minha carteira a não ser uns cartões de visita. Dei um deles e ele correu pro caixa para pedir um lápis emprestado. Um minuto depois ele voltava todo feliz com o seu troféu e me deu. Na hora disse que é dele. Afinal, ele teve a paciência, o saco, o mico, sei lá de pedir um lápis e um autógrafo do cara. E também não tenho o costume de fazer isso e nem guardar autógrafos. Ele de tanto insistir fez com que guardasse o autógrafo na carteira, junto dos outros cartões de visita e notei que além do autógrafo tinha colocado um desenho do Congresso Nacional no canto. Como quem dissesse de onde veio, pois provavelmente não estava homenageando Niemeyer nem JK.

Não sei porque deixei esse cartão de visita entre os demais até hoje. Talvez por preguiça ao vê-lo no meio dos demais cartões. Simplesmente poderia jogar fora com algum contato que não me desse mais interesse. Mas sempre que fazia isso, deixava-o no meio dos outros. Provavelmente uma voz bem baixa no meu ouvido me dizia que aquilo valeria algo um dia. Como na cena dos Caçadores da Arca Perdida em que o arqueólogo-vilão do Indiana Jones dizia que se enterrar um relógio comum no deserto por mil anos faria esse relógio ter um valor inestimável depois. Naquele momento essa voz dizia que aquele cara barbudo, de óculos e feio feito o cão iria mover massas em shows que pareciam verdadeiras missas com seus devotos em total transe. Porque tinha coisas a dizer e sabia que nem tinha apelo visual pra colocar meninos e meninas aos seus pés. E passado mais um ano, mesmo depois de anos sem nada novo, as mensagens nas músicas alcançam outras gerações de rebeldes sem causa e com causa também. Principalmente os com causa. Mas o troféu pelo momento adolescente ainda está comigo.

Friday, October 06, 2006

Amigos / Inimigos



Bel_______________

Amigos - Os últimos dias andei conversando, teorizando, muito sobre amizades. Em uma dessas conversas, me perguntaram quantos amigos de verdade eu tenho. Pensei e cheguei a conclusão de que não tenho nenhum amigo de verdade.

Explico. Para mim não existe essa história de amigos, amigos de verdade, amigos do peito. Amigo é amigo. E quem não é amigo é conhecido.

E aí veio a pergunta, e o que é amigo para você então? Essa foi fácil, nem tive que pensar para responder.

Amigo para mim é alguém para quem você não precisa ligar às três da manhã porque ele te ligou antes. Ou então está do seu lado no momento em que você precisa. Amigo fica feliz com nossas alegrias, mesmo que ele não esteja lá muito bem. Ele não seca nossas lágrimas quando choramos, ele fica do nosso lado e depois olhando no olho solta um suspiro enorme de satisfação e alívio junto com a gente.

Chama a gente de bobo, mas não para de cantar músicas ridículas e fora de moda nas madrugadas da vida. Ri da mesma piada centenas de vezes.

Ao lado dos amigos não existem amores impossíveis, barreiras intransponíveis. E mesmo que na hora não faça o mínimo sentido, o amigo sempre tem razão. A outra pessoa realmente não era assim tão importante e nossa vida não acabou por conta dela!

Já repararam como cerveja com amigo é sempre mais gostosa (mesmo que ela esteja quente e choca)? Já viram que festa com amigo é sempre mais animada (mesmo que sejam apenas três malucos bebendo em uma mesa de bar)?

Não existe amigo distante. Amizade não é físico, não exige presença, não tem que ver e falar todo dia (quando dá é ótimo, mas quando não dá a amizade continua assim mesmo).

Só que para entender o que é ter um amigo é preciso ter pelo menos um inimigo! E inimigo é, bom deixa pra outra hora. Inimigo é tão chato que nem vale a pena estragar amizades falando dele.

Apenas aos amigos:

Não quero recados melosos do tipo "eu te amo" ou "você é a melhor amiga do mundo". Mas o amigo que leu até aqui e não deixar um recado para mim, vai receber spams, correntes e pps até o fim da minha vida!

Inimigos - Promessa é dívida. O que é um inimigo para mim....

Inimigos não são pessoas que nos odeiam. Não. São pessoas que nos amam tão profunda e alucinadamente que querem ser o que somos. Querem ser a gente. Vestir nossa pele.

Perdem tempo falando mal da gente para nossos amigos porque eles são mais interessantes ao nosso lado. Desdenham do nosso cabelo, das nossas roupas, apenas para correr e comprar e fazer igual.

Prestam tanta atenção na gente, que podemos prestar atenção em coisas mais importantes, como o cinema e o chopp com os amigos! Arrumar um namorado melhor! Encontrar aquele quadro perfeito para o canto mais perfeito ainda da nossa casa.

Se alegram com nosso sofrimento, não porque estamos mal, mas porque eles podem se sentir mais fortes. Desprezam nossas vitórias e conquistas porque não foram vitórias e conquistas deles.

No fundo o problema de qualquer inimigo é não ter vida própria. É ter que contentar-se de viver das sobras de uma vida alheia.

Se por algum acaso um inimigo meu ler isso (isso é, se eu tiver algum, se for possível que existe alguém no mundo que me conhecendo consiga ter sentimentos destrutivos em relação a minha pessoa tão maravilhosa – bom sempre tem uma ex-mulher por aí que pode me odiar!!!!) saiba que eu continuo linda, generosa, inteligente, independente, apaixonante, esfuziante e feliz. Muito feliz.

PS: Vodu não pega. Nem precisa perder tempo!

Monday, September 04, 2006

Amenidades


Aloisio Santos _____ Alguns de vocês não sabem, mas faço parte de um grupo de discussão chamado “Naum”. Surgido da idéia de um amigo meu em fazer um contato mais próximo com amigos em comum e com a família, já que ele mora em São Paulo. Mas diferente da maioria dos grupos de discussões existentes, não tem nada de “nerd”. Ninguém vai falar sobre o biquini dourado da Princesa Leia em “O Retorno de Jedi”, ninguém vai falar sobre um novo videogame que pode desbancar o PS2, tampouco pra jogar ovos virtuais num grupo de pagode. O papo é super amigável, embora tenha algumas normais rusgas, pois tudo rola como num clima de mesa de bar. E graças aos acontecimentos atuais do nosso país tem seus assuntos centrados mais na política, na economia, negócios, pessoas e... De vez em quando sobre o biquíni dourado da Princesa Leia, já que ninguém é de ferro. E dias atrás, depois de quase um ano de atividades, parte do grupo saiu do virtual para a real mesa de bar. Não que já nos conhecêssemos, muito pelo contrário. Todos com raras exceções têm amizades de anos, o que deixou a roda mais incrível. Mas o que me deixou feliz mesmo foi a forma como fui apresentado aos que não conhecia pessoalmente. “Este é o Aloísio... o que fala de cinema e amenidades... O Caderno B do Naum”.

Pra muita gente, num grupo que costuma discutir basicamente coisas bem sérias, isso pode cair na cabeça como um insulto. Errado. Pelo menos pra mim, foi o maior dos elogios. Estava num bar de frente para a Praia de Ipanema. Bem embaixo de onde existia uma casa de shows chamada Jazzmania, onde o melhor do Free Jazz (atual Tim Festival) costumava dar canjas e onde surgiu bastante gente boa da nossa música, como a Marisa Monte, por exemplo. Quer mais ameno do que isso? Fui posto numa posição onde na hora dos ânimos mais exaltados viessem à tona e chegarem quase na pancadaria (pelo menos no ramo das idéias), eu viria com uma conversa sobre um filme, uma música. Uma amenidade qualquer. Não tão amena que caísse numa revista de fofocas (aí sim seria um insulto). Mas o suficiente pra deixar um pouco de pseudo-cultura numa galera que tem cultura pra dar e vender. E como é bom isso de vez em quando.

Era mais ou menos como se a Lílian Witte Fibe, no final do Jornal da Globo mandasse uma matéria que não fosse sobre economia ou política, sem aquela cara de nojo que ela costumava fazer. Sempre que via isso me deixava com uma fúria o bastante pra que perdesse o sono que acabara de chegar. Pelo menos nos próximos dez minutos. Agora nem sei por onde anda a Lílian. A última “notícia” que soube era que virara âncora do TV Terra... Pensando em amenidades e atualidades, apresentar um jornal virtual em um portal na internet pode ser o máximo. Mas para quem ancorou os principais telejornais da tv brasileira por anos, não sei. O pior é que provavelmente ganha os tubos com isso. Mas aí já é uma cisma pessoal que não admitia ver uma jornalista séria não considerar uma amenidade, uma matéria. E com certeza se sentiria insultada por alguém que dissesse a ela que é a responsável por falar de cinema e amenidades, sei lá. Só sei que dessa forma vivo bem. E muito melhor se escrevesse besteira no Caderno B, do Jornal do Brasil ou no Segundo Caderno do Globo. Ganharia bem pra falar o que sempre falo aqui. Ou pelo menos ganharia algo.

Saturday, July 08, 2006

Sou mais mambembe


Aloisio Santos_____ Filas quilométricas. Muita gente vidrada esperando por um evento que só vai acontecer daqui a cinco meses. Pagarão caro por isso. O mais barato custa duzentos reais. Afinal toda uma estrutura virá de fora do país para mostrar o que há de melhor no gênero e contam com centenas de profissionais de todas as partes do mundo. Há! Pensou que vinha um rock star? Errou longe, mesmo que muitos pensem que o status deles elevam-se a esse patamar. Mas é um circo. O Cirque du Soleil que trouxe uma nova visão para o espetáculo circense virá pela primeira vez ao Brasil.

Pelo que estamos acostumados a ver em programas dominicais e agora até em dvd’s é algo de encher os olhos. Malabares, trapezistas. Cores de todos os tons. Música e encantamento enfim. Mas quer saber? “Me inclua fora dessa”, como diriam alguns. Não que circo não seja algo interessante. Muito pelo contrário. Quem viu Orlando Orfei quando criança sabe o que um circo pode fazer. Era algo simplesmente mágico. Grandioso. É por isso que os que os canadenses pretendem mostrar não faz com que tire o meu suado dinheiro do bolso.

Uma conversa como essa de bar, mostra que o Cirque du Soleil é uma espécie de McDonald’s do mundo circense. É verdade. Tudo ali parece muito limpinho, tão asséptico. É bem verdade que estamos diante de algo muito bonito. Não há nenhuma dúvida. Mas é tudo cronometrado demais. Muito milimétrico. Não há suspense no trapézio. Não vemos nada que, obedecendo as devidas proporções, se compare aos garotos que fazem de sua vida circense o seu trabalho nas esquinas e sinais do país. Eles sim são artistas.

Não temos no Soleil animais, por exemplo. Eles garantem que assim o show é mais politicamente correto, pois não há maus tratos aos bichos. Há de se concordar com esse ponto. Dá dó ver tigres, elefantes, cães expostos ao ridículo. Mas como explicar para as crianças que esse circo não vai ter gente botando a cabeça na boca do leão, como você costumava contar para elas? E tigres saltando? Cavalos mostrando exuberância e destreza?

Ok. Vamos então para o lado humano da coisa. Não há nenhum “Merry go round” nas trilhas. Os canadenses fazem a própria trilha ao vivo como numa banda de rock. Divino. Quem nunca pensou nisso? Mas um tanto “muderno” pro que se pretende. Todos os participantes têm aqueles cabos que se usam em dublês de filmes de ação. Ou seja, mesmo nos erros não há rede embaixo. Lá se foi o suspense. E em vez da famosa maquiagem cheia de brilhos e exageros, eles aparecem com roupas e rostos vindos de um conto de fadas. Acabaram de colocar o ISO12000 no mundo do circo. O espetáculo da extrema perfeição.

Aqui não teremos Globo da Morte. Pessoas serradas ao meio. Tadinhas das crianças que ficarão noites sem dormir diante de momentos de total perversão humana. Com certeza não terá algodão doce, pipoca feita na hora na carrocinha. Quando muito um hot dog dos empreendimentos licenciados para vender com seus exclusivos pães feitos em trigo selecionado. E claro. Compre dois e ganhe um chaveiro. Nesses dias, palhaços não riem da desgraça alheia nem do outro palhaço para o nosso deleite, respeitável público. Eles colocarão suas máscaras e depois de duas horas (tá bom, menos...) eles se juntarão a uma comunidade internacional totalmente selecionada depois de anos de treinamento. Onde muitos deixaram suas medalhas de ginástica penduradas na parede devido à idade. Mas beleza. São artistas e merecem respeito.

Todos logicamente voltarão encantados para casa e comprarão toda a sorte de merchandising. Você já viu o dvd? Está perdendo tempo. Mas em uma coisa temos certeza. Hoje não vai ter marmelada. Não senhor

Wednesday, June 14, 2006

Vida que segue


Aloisio Santos ____ Quem viveu nos anos 70 e 80, deve se lembrar de uma revista chamada “MAD”. Nela tinha uma brincadeira no estilo “Você sabe que está perdido quando...”, “Você sabe que está falido quando...” e depois, vários desenhos hilários ilustravam a situação. Pois é. Neste caso eu faria um “Você sabe que está velho quando...”. E a resposta seria: “Quando nem um bolo de aniversário você teve em casa”. Mas tudo bem, você não espera que a certa altura do campeonato, sua mãe com mais de 70 anos levante-se com uma gripe daquelas pra ir pra cozinha e o resto da sua família quer mais que você Weissenfühder (só pra usar um “termo germânico” em dias de Copa). Mas mesmo assim não posso reclamar, afinal não faltaram parabéns, mensagens e telefonemas. Só no orkut, mais da metade dos meus amigos reais e virtuais mandaram pedaços de afeto, carinho e amizade. Agora, pensando bem, esse dia não seria exatamente uma amostra cômica, como na revista. Seria mais ou menos como um daqueles personagens de comédia besta americana onde um mauricinho faria um “L” com os dedos sobre a testa para você. Duvida? Ok, explico como foi.

Cinco e meia da manhã e o casal vizinho logo acima (que é famoso por acordar o prédio inteiro, de madrugada, realizando verdadeiros test-drives para elenco de filme pornô nacional) resolveu comemorar a noite do dia dos namorados quebrando todos os utensílios e móveis da casa. E bradando ao último volume qual dos dois é o mais insensato. Tudo bem, eu passei essa noite sozinho, por isso não reclamo de passar por situação igual. No máximo de que quem eu quero não me quer e daquela que você sempre quis dar uns pegas te ligar, dizendo que o casamento dela vai mal e que tem sonhado contigo... E de me fazer acordar 3 horas antes do costume, claro!

Bom, nada a fazer a não ser levantar. Mais um dia de labuta pra conseguir pouco mais do que dois salários mínimos. Isso depois de você aturar Deus e o mundo para isso e com aquela sensação de que tem quem ache que você nunca fez o suficiente (nem eu, claro!). E sou beijado pela minha gripada mãe e zoado pelo meu sobrinho e pela minha irmã (já perceberam que não moro sozinho claro...). Mas tudo bem. Eu trabalho em casa e em vez de ter um só chefe, tenho vários. Os meus clientes. E só pra bater um texto no Word a luz caiu várias vezes, porque além do banho demorado do meu sobrinho, todos os eletrodomésticos e luzes da casa estão ligados. O problema é que pela 4ª vez na minha vida, meu aniversário caiu no dia de um jogo do Brasil e perto de mais um feriadão. Isso significa que meu vizinho do lado vai passar o dia ouvindo aquele pagode fuleira, cantando dor de corno (e ele junto) as próximas 24 horas, ou 48, ou 72 talvez. Coisa que ele costuma fazer num fim de semana, me acordando 4 horas antes do que estou acostumado. Mas tudo bem, tenho o disco do Sepultura guardado aqui pro dia da vingança.

Ótimo. Dia de jogo do Brasil na Copa e meu trabalho vai ser em passo de tartaruga. Ligo pro pessoal onde vai ser a torcida. Casa de um amigo em comum. Ótimo, é perto de casa e não preciso encarar metrô ou ônibus (Carro? O que é isso?) em engarrafamento pra simplesmente ver um jogo. É só levar a birita ou o que quiser beber. Infelizmente meu fígado partiu de mala e cuia para outro corpo no 6° período da minha faculdade, por isso vou ter de ir de refrigerante. Chegando lá descubro que além de mim, só tem mais um solteiro na galera. O resto está com crianças pulando em frente da tv, em cima de todos os móveis e berrando mais do que o Galvão Bueno (graças a Deus). Uma delas me pegou pra Cristo com uma corneta no meu ouvido todo o 2° tempo. Pelo menos serviu pra não dormir daquele jogo sem tempero. E graças a Deus também conseguimos vencer.

Resultado magro no futebol e sem álcool na cabeça pra comemorar por besteira a solução é voltar pra casa. Pra mais uma noite de mais um dia. E só tenho a agradecer por isso. Por que eu sei que terei muitos como esse, multiplicados por 365 e multiplicado por várias vezes. Vida que segue.